O necessário e um pouco mais.

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Adeus

Seja o que o adeus quiser

A pessoa perguntou se ainda havia café. Havia. Pouco, no fundo da garrafa, provavelmente frio. Eu disse que podia fazer outro. Ela olhou para o relógio e respondeu que não precisava.

Fiquei com a mão na tampa.

Há algum tempo, nossas conversas terminavam assim: eu oferecendo mais alguma coisa, ela dizendo que não precisava. Mais café, uma carona, um domingo juntos. Custei a perceber porque ninguém tinha levantado a voz. A gente ainda perguntava sobre o trabalho, comentava o preço das coisas, mandava uma notícia encontrada no celular. Por fora, havia assunto.

Ela recolheu a bolsa do chão. Conferiu os bolsos, procurou a chave. Eu acompanhava aqueles movimentos com uma atenção que já não dedicava às coisas boas. Conhecia o jeito de prender o cabelo, a pequena impaciência quando alguma coisa sumia dentro da bolsa. Pensei em dizer isso. Pareceu tarde e um pouco injusto lembrar que eu reparava nela justamente quando estava indo embora.

— Depois a gente conversa.

Concordei. Já tínhamos usado aquela frase outras vezes. Ela nos permitia terminar uma tarde sem precisar terminar mais nada.

Na porta, houve um abraço. Demorou o suficiente para me confundir. Quase pedi que ficasse, mas senti a chave entre os dedos dela, encostada nas minhas costas.

Abri a porta.

Depois que o elevador desceu, voltei para a cozinha. A xícara estava pela metade. Havia uma marca de café na borda e uma colher pequena sobre a mesa. Fiquei olhando, como se fosse necessário decidir imediatamente o destino daquelas coisas.

Peguei o celular.

Escrevi que ainda dava tempo de conversar. Apaguei. Escrevi que tinha sido bom vê-la. Aquilo soava como uma educação triste demais para nós dois. Apaguei também.

Deixei o aparelho ao lado da garrafa e bebi o resto do café. Estava frio, como eu imaginava.

Não senti alívio. Também não veio aquela clareza bonita que às vezes aparece nos filmes, quando alguém vai embora e o outro finalmente entende a própria vida. Eu só estava numa cozinha, num sábado, sem saber o que fazer com o restante da tarde.

Lavei as xícaras. Guardei o pão. Passei um pano na mesa.

O celular acendeu uma vez. Era a operadora oferecendo mais internet.

Quase ri.

Mais tarde, abri a janela. Alguém discutia uma vaga na rua, um cachorro latia, a televisão do vizinho anunciava alguma coisa imperdível. Eu precisava comprar comida. Precisava trocar a lâmpada do corredor. Havia uma vida inteira de pequenas providências esperando, indiferente à minha vontade de ficar parado.

Antes de sair, olhei o celular mais uma vez.

Seja o que o adeus quiser, pensei.

Peguei a chave e fui comprar pão.

Fim

O fim não é triste, é um estranho familiar

Chega como quem já esteve ali. Não toca a campainha, não pede licença, não se desculpa pelo horário. Entra, puxa uma cadeira, senta-se à mesa e observa tudo com a intimidade inconveniente de quem conhece a casa, seus moradores e os segredos escondidos nas gavetas.

Às vezes, pede um café. Outras, apenas espera.

Não tem pressa. Nunca teve.

Somos nós que vivemos correndo, tentando chegar a algum lugar, alcançar alguma coisa, encontrar alguém, recuperar o que perdemos ou impedir que aquilo que amamos desapareça. Corremos tanto que raramente percebemos quantas vezes o fim já caminhou ao nosso lado.

Ele esteve no último abraço que parecia apenas mais um. Na conversa interrompida por uma banalidade qualquer. Na fotografia tirada sem imaginar que seria a última. Esteve naquele domingo comum, na xícara esquecida sobre a mesa, na roupa que ainda guardava um perfume, na voz que, de repente, passou a existir apenas na memória.

E ninguém nos avisou.

Talvez porque os fins verdadeiros raramente façam anúncios. Não chegam acompanhados de grandes discursos, trilhas sonoras ou explicações convincentes. Simplesmente acontecem. Algumas vezes diante dos nossos olhos. Outras, enquanto estamos distraídos vivendo.

Há amores que terminam muito antes da despedida. Amizades que morrem lentamente entre duas mensagens não respondidas. Sonhos que envelhecem dentro de nós sem jamais conhecerem a luz do dia. E há pessoas que continuam presentes, sentadas à nossa frente, conversando sobre o tempo, o trânsito e o preço das coisas, embora já tenham partido de nossas vidas há muito tempo.

Essas são as despedidas mais estranhas. Aquelas em que ninguém vai embora, mas ninguém permanece.

Durante anos, acreditei que todo fim precisava de uma explicação. Uma razão definitiva, uma culpa reconhecida, uma última conversa capaz de colocar cada coisa em seu devido lugar. Como se a vida fosse um livro bem escrito, no qual todos os personagens recebessem a oportunidade de compreender o próprio destino antes da última página.

Mas a vida não tem esse compromisso com a literatura.

Ela deixa frases pela metade, perguntas sem resposta, promessas esquecidas e personagens que desaparecem sem qualquer consideração pelo leitor.

E seguimos.

Seguimos porque o aluguel vence, porque a fome chega, porque alguém telefona, porque a roupa precisa ser lavada e porque, por mais devastadora que tenha sido a noite, a manhã insiste em acontecer.

Existe uma crueldade quase cômica nessa indiferença do mundo. Podemos perder um amor numa terça-feira e, na quarta, ainda precisar comprar pão. Podemos enterrar alguém numa sexta e descobrir, no sábado, que a torneira da cozinha continua vazando.

A vida não suspende suas pequenas obrigações em respeito às nossas grandes tragédias.

Talvez seja por isso que sobrevivemos.

Não por coragem extraordinária, nem por alguma sabedoria adquirida nas derrotas. Sobrevivemos porque os dias continuam chegando, um depois do outro, empurrando-nos discretamente para diante, mesmo quando uma parte de nós insiste em permanecer no lugar onde tudo terminou.

Com o tempo, aprendemos que nem toda ausência é uma perda. Algumas são libertações que demoram a ser reconhecidas. Nem toda despedida é uma tragédia. Algumas são apenas o último gesto de honestidade entre pessoas que já não conseguem permanecer juntas sem destruir aquilo que um dia foi bonito.

E nem todo silêncio significa vazio.

Há silêncios cheios de compreensão. Outros, de cansaço. Alguns guardam uma dignidade que as palavras já não conseguem sustentar.

Envelhecer talvez seja aprender a distinguir uns dos outros.

O curioso é que, depois de tantos encontros com o fim, ainda nos surpreendemos quando ele aparece. Reconhecemos seu rosto, seus gestos, seu jeito de ocupar os espaços. Sabemos até o barulho que faz ao arrastar a cadeira. Mas continuamos perguntando o que veio fazer ali.

Ele não responde.

Nunca responde.

Apenas nos olha como quem sabe que, no fundo, já compreendemos.

E então percebemos que o fim não levou tudo. Ficaram os hábitos, as músicas, os lugares, os pequenos vícios de linguagem. Ficou uma maneira diferente de olhar o mundo. Ficaram cicatrizes que já não doem, mas que ainda reconhecemos quando passamos os dedos sobre elas.

Ficou, sobretudo, aquilo que fomos enquanto alguma coisa existia.

Porque todo fim, por mais definitivo que pareça, é também o testemunho de que alguma coisa aconteceu. Que houve presença, desejo, esperança, entrega. Que alguém esteve ali. Que uma história, mesmo imperfeita, encontrou tempo e espaço para existir.

E isso não é pouco.

Hoje, quando o fim aparece, já não faço tantas perguntas. Às vezes, ofereço café. Abro a janela. Deixo que se sente. Não porque tenha aprendido a gostar de sua companhia, mas porque compreendi a inutilidade de expulsar alguém que conhece tão bem o caminho de volta.

Conversamos pouco.

Ele observa a casa. Eu observo o tempo.

Lá fora, as pessoas continuam atravessando a rua, os ônibus continuam atrasados, os bares continuam abrindo e fechando. Em algum lugar, duas pessoas se apaixonam. Em outro, duas pessoas deixam de se amar. Uma criança nasce. Um velho fecha os olhos. Alguém faz planos para o próximo verão.

E o mundo segue, indiferente e extraordinário.

Antes de sair, o fim costuma olhar para trás. Não diz adeus. Talvez porque saiba que voltará. Talvez porque, depois de tantas visitas, as despedidas tenham perdido a necessidade de palavras.

Dessa vez, porém, percebo algo diferente.

Já não sinto vontade de perguntar por que veio.

Apenas me levanto, recolho as xícaras e acompanho seus passos até a porta.

Ele parte.

Eu fico.

E, pela primeira vez, compreendo que permanecer também é uma forma de despedida.

O fim não é triste. É um estranho familiar.

Triste, talvez, seja passar a vida inteira tentando evitá-lo e, por medo de perder, esquecer de viver aquilo que ainda não terminou.

— Sergio França

Feira de Frutas

Olha o barulho da feira
Vou esperar esse dia chegar
Eu vou comprar muitas frutas – muitas!
Vou esperar esse dia chegar

Amora, banana, cereja
Damasco, embu, framboesa
Goiaba, hala, inajá

Jaca, kiwi, laranja
Manga, noni, oxicoco
Pitanga, quixaba, romã

Sicana, toranja, umbu
Veludo, wampi, xixá
Yaca, zarzamora

Olha o barulho da feira
Vou esperar esse dia chegar
Eu vou comprar muitas frutas – muitas!
Vou esperar esse dia chegar

Hoje já é quarta-feira
Vou esperar esse dia chegar
Agora já é meio-dia
Vou esperar esse dia chegar

Moça bonita não paga
Mas também não leva
Mas também não leva

Manga, mamão, melancia
Maçã, melão, maracujá
Flores, frutas, alegria
Pra levar pra ela

Sergio França ♥ Heitor Kalel
29/10/2026

Tempestade

A tempestade não mata.

Mata o silêncio que vem depois. Mata a espera por quem prometeu abrigo e fechou a porta na primeira trovoada. Mata descobrir que alguns dos que seguravam nossas mãos eram os mesmos que desejavam nos ver afundar.

A tempestade não mata. Ela arranca os telhados, derruba as paredes, leva embora os retratos e espalha pelo chão aquilo que passamos a vida inteira tentando manter de pé.

Mas não mata.

O que mata é a mentira vestida de verdade. É a maldade disfarçada de cuidado. É a covardia de quem provoca o naufrágio e depois aparece na praia perguntando pelos sobreviventes.

E a gente sobrevive.

Às vezes sem rumo, sem guarda-chuva, sem vontade de olhar pela janela. Sobrevive encharcado de decepções, carregando nos bolsos algumas lembranças molhadas e a estranha sensação de ter perdido mais do que possuía.

Até que um dia o sol aparece.

Não para pedir desculpas. Não para devolver o que a chuva levou. Apenas aparece, indiferente às nossas tragédias, como se nada tivesse acontecido.

E talvez essa seja a maior crueldade e a maior beleza da vida: o mundo continua, mesmo quando alguma coisa dentro de nós desaba.

A tempestade não mata.

Mas há quem passe o resto da vida tentando descobrir se aquilo que sobreviveu ainda pode ser chamado de vida.

Queda

OUTRA VEZ. DE NOVO.

Por Fadario Foster

A maldade e a mentira me passaram uma rasteira. Outra vez.

E eu não caí. Fui derrubado.

Outra vez. De novo.

Há uma diferença enorme entre cair e ser derrubado. Quem cai pode ter tropeçado nos próprios pés, calculado mal a distância, bebido demais ou simplesmente perdido o equilíbrio. Mas quem é derrubado conhece o peso da intenção alheia. Sente a violência de uma mão invisível, a covardia de um gesto calculado, a precisão miserável de quem sabe exatamente onde machucar.

E machuca.

Porra, como machuca.

Não pelo tombo. A gente aprende a suportar a dor dos joelhos ralados, das costas no chão, dos dentes cerrados. O que dói é descobrir que a rasteira veio justamente de quem caminhava ao nosso lado. De quem conhecia nossos passos, nossas cicatrizes, nossas dificuldades para continuar de pé.

A mentira é uma filha da puta bem-vestida. Usa perfume caro, fala baixo, sorri bonito e sabe olhar nos olhos. A maldade, por sua vez, é mais ordinária. Não precisa de grandes argumentos. Basta encontrar uma oportunidade, uma fraqueza, uma porta entreaberta.

Quando as duas se encontram, fazem uma bela sociedade.

E quase sempre sobra para quem ainda acredita nas pessoas.

Eu sei. Parece estupidez continuar acreditando depois de tantas decepções. Talvez seja. Talvez a esperança seja apenas uma forma sofisticada de burrice. Mas há alguma coisa dentro de mim que se recusa a aceitar que o mundo pertença exclusivamente aos canalhas.

Não sou santo. Nunca fui. Tenho meus pecados, minhas contradições, minhas pequenas misérias particulares. Já errei com pessoas, já disse coisas que deveria ter engolido, já me calei quando precisava gritar. Mas existe uma distância imensa entre ser imperfeito e ser deliberadamente cruel.

E essa distância não se mede em metros.

Mede-se em caráter.

O pior é que a mentira raramente anda sozinha. Precisa de plateia, de cúmplices, de gente disposta a acreditar na primeira versão porque investigar a verdade dá trabalho. E há sempre aqueles que sabem de tudo, mas preferem não se envolver. Os covardes de mãos limpas. Os diplomatas da desgraça. Os que assistem à injustiça e depois perguntam por que a vítima está tão revoltada.

Como se a indignação fosse um defeito.

Como se a dor precisasse pedir licença.

Outra vez.

De novo.

Estou cansado dessa repetição. Cansado de aprender as mesmas lições com professores diferentes. Cansado de descobrir que algumas pessoas não têm limites, apenas oportunidades. Cansado de ouvir que tudo acontece por algum motivo, como se a crueldade precisasse de uma explicação divina para deixar de ser uma escolha humana.

Às vezes, a vida simplesmente é uma merda.

E pronto.

Não quero transformar cada ferida numa lição de superação. Nem toda dor ensina. Algumas apenas doem. Algumas roubam o sono, o apetite, a vontade de conversar. Outras fazem a gente envelhecer dez anos numa única tarde.

Há dias em que sobreviver não tem absolutamente nada de heroico.

É apenas continuar respirando.

E talvez seja isso que mais incomode aqueles que tentaram me derrubar: eu continuo aqui. Não intacto. Não invencível. Muito menos indiferente.

Continuo aqui, com alguma coisa quebrada por dentro, tentando entender por que ainda me surpreendo com a maldade humana.

Talvez porque eu não queira me acostumar.

Porque o dia em que a mentira deixar de me indignar será o dia em que alguma coisa essencial terá morrido dentro de mim.

E eu já enterrei coisas demais.

Hoje não quero perdoar ninguém. Não quero discursos sobre evolução espiritual, vibrações positivas ou a obrigação moral de compreender quem me feriu. Quero apenas o direito de estar puto. De sentir a pancada. De reconhecer a injustiça sem precisar transformá-la imediatamente numa oportunidade de crescimento.

Amanhã talvez eu pense diferente.

Hoje, não.

Hoje vou recolher o que sobrou de mim, lavar o rosto, preparar um café forte e olhar pela janela enquanto o mundo continua sua rotina indiferente.

Lá fora, alguém estará mentindo. Alguém estará acreditando. Alguém estará traindo uma confiança antiga por uma vantagem pequena.

E alguém, em algum lugar, estará sendo derrubado pela primeira vez.

Eu gostaria de dizer a essa pessoa que tudo passa.

Mas estaria mentindo.

Algumas coisas não passam. Apenas encontram um lugar menos barulhento dentro da gente.

A maldade e a mentira me passaram uma rasteira.

Outra vez.

E eu não caí.

Fui derrubado.

Mas há uma última diferença que esses filhos da puta talvez nunca compreendam:

Derrubar alguém é um ato de força ou covardia. Mantê-lo no chão exige que ele desista de si mesmo.

E eu ainda não desisti.

Não por coragem.

Não por orgulho.

Muito menos para provar alguma coisa a alguém.

É que, apesar de tudo, ainda tenho uma vida para viver.

E seria uma sacanagem dos diabos deixar que a mentira dos outros escrevesse o último parágrafo da minha história.

Fadario Foster

Tríade do Mal – Capítulo 2 — Ecos do Espelho

Na manhã seguinte, a cidade parecia exatamente a mesma.

Os ônibus seguiam lotados.

As pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas.

Os semáforos alternavam suas cores com a precisão indiferente de sempre.

Nada denunciava que, na noite anterior, Lina havia encontrado um símbolo capaz de perturbar tudo aquilo em que acreditava.

Ou talvez denunciasse.

Era ela quem já não enxergava a cidade da mesma forma.

Dormira menos de duas horas.

Sempre que fechava os olhos, via o triângulo desenhado na parede úmida do túnel. Não era apenas a imagem que retornava. Era a sensação de estar sendo observada. Como se aquele desenho tivesse encontrado um lugar dentro de sua memória e agora recusasse partir.

Ao chegar ao instituto onde trabalhava como pesquisadora em comportamento humano, deixou a mochila sobre a mesa e tentou retomar a rotina.

Ligou o computador.

A tela inicial apareceu normalmente.

Até que um pequeno aviso surgiu no canto inferior.

Erro de sincronização.

Ela ignorou.

Abriu sua pasta de pesquisas.

Centenas de arquivos.

Artigos.

Entrevistas.

Experimentos.

Mas uma nova pasta havia surgido.

Ela tinha certeza de que nunca a criara.

O nome era simples.

TRÍADE

Lina permaneceu imóvel.

O cursor do mouse pairava sobre o ícone.

Sentia aquele impulso irracional de não abrir.

Como se soubesse que, depois disso, alguma coisa deixaria de existir.

Respirou fundo.

Clicou.

A pasta continha apenas um documento.

Sem autor.

Sem data.

Sem origem.

Título:

“A natureza do poder não está em dominar pessoas. Está em fazer com que elas desejem ser dominadas.”

Ela franziu a testa.

O texto continuava.

“Todo ser humano possui três impulsos fundamentais. O desejo de ser admirado. O desejo de controlar. O desejo de não sentir culpa.”

“Separados, esses impulsos produzem indivíduos difíceis.”

“Unidos, produzem civilizações.”

Lina fechou o arquivo imediatamente.

Sentiu as mãos frias.

Chamou o técnico de informática.

— Você pode verificar uma coisa para mim?

O rapaz apareceu alguns minutos depois.

Abriu o computador.

Procurou a pasta.

Não encontrou nada.

— Qual pasta?

— A que estava aqui agora.

— Não existe nenhuma pasta nova.

Lina insistiu.

Mostrou onde havia clicado.

A área estava vazia.

O técnico sorriu com gentileza.

— Talvez tenha aberto um arquivo temporário.

Ela agradeceu, embora soubesse que não era isso.

Esperou que ele fosse embora.

Assim que ficou sozinha, a pasta reapareceu.

No mesmo lugar.

Como se jamais tivesse desaparecido.

Dessa vez havia dois documentos.

O segundo possuía apenas uma fotografia.

Três pessoas.

Vestidas formalmente.

Nenhuma sorria.

Atrás delas, na parede de uma sala de reuniões, havia um discreto objeto metálico em forma de triângulo.

No verso da fotografia, digitalizado em alta resolução, lia-se apenas:

“Eles descobriram antes de você.”

Lina ampliou a imagem.

Parou no rosto do homem à esquerda.

Seu coração acelerou.

Conhecia aquele rosto.

Era o professor Augusto Ferraz.

Seu orientador durante o mestrado.

Morto havia nove anos.

Ou, pelo menos, era isso que todos acreditavam.

Naquele instante, alguém bateu três vezes na porta da sala.

Três batidas secas.

Compassadas.

Ela olhou para o relógio.

11h11.

— Entre.

Nenhuma resposta.

Abriu a porta.

O corredor estava vazio.

No chão havia apenas um envelope pardo.

Sem remetente.

Dentro dele, uma única folha.

Sem assinatura.

Escrita à mão, com tinta preta:

“Não procure quem desenhou o símbolo. Procure quem o apagou.”

Antes que pudesse reagir, ouviu vozes vindas da sala ao lado.

Dois professores conversavam.

— Você conheceu o Ferraz?

— Conheci.

— Estranho… às vezes tenho a impressão de que ele nunca foi embora.

Lina voltou lentamente para sua mesa.

Quando olhou para a tela do computador mais uma vez, a pasta TRÍADE havia desaparecido.

Mas algo permanecia.

No monitor desligado, refletido no vidro escuro, ela viu seu próprio rosto.

E, por um breve instante, teve a nítida impressão de que o reflexo sorriu antes dela.

Tríade do Mal | Capítulo 1 — O Símbolo

A chuva começou pouco antes da meia-noite.

Pesada.

Constante.

As ruas pareciam dissolvidas sob o reflexo tremido dos postes antigos, e a cidade carregava aquele silêncio estranho que só existe quando algo ruim ainda não aconteceu — mas já está a caminho.

Lina percebeu o símbolo pela primeira vez às 00h43.

Estava desenhado na parede do túnel da estação desativada da Zona Norte.

Um triângulo preto.

Simples.

Três linhas imperfeitas feitas aparentemente com carvão ou tinta que escorrera lentamente pelo concreto úmido.

Mas havia algo errado nele.

O símbolo parecia… vivo.

Não se movia exatamente.

Mas produzia a sensação desconfortável de que estava observando quem passava.

Lina parou diante da parede.

O corredor estava vazio.

A água pingava do teto em intervalos regulares.

Ela ergueu a lanterna do celular.

No centro do triângulo havia uma frase escrita à mão:

“Todo homem possui três rostos. O último é o que destrói.”

Um arrepio percorreu sua nuca.

Ela fotografou o símbolo.

A tela do celular falhou imediatamente.

Linhas estáticas atravessaram a imagem.

Depois apagou.

— Ótimo… perfeito…

Sua voz ecoou pelo túnel vazio.

Ela tentou ligar o aparelho novamente.

Nada.

Então ouviu passos.

Lentos.

Atrás dela.

Lina virou rápido.

O corredor continuava vazio.

Mas o som não parou.

Passos úmidos.

Arrastados.

Próximos demais.

Seu coração acelerou.

— Tem alguém aí?

Silêncio.

Apenas a chuva distante.

Ela respirou fundo, tentando parecer racional.

Provavelmente um morador de rua.

Talvez algum usuário escondido nos trilhos.

Talvez apenas o eco.

Ela começou a caminhar de volta.

Os passos acompanharam.

Exatamente no mesmo ritmo.

Quando ela acelerava…

eles aceleravam.

Quando diminuía…

eles diminuíam.

Lina não olhou para trás dessa vez.

Continuou andando mais rápido.

O túnel parecia maior agora.

Longo demais.

Como se a saída tivesse se afastado.

As luzes antigas no teto começaram a piscar.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Então apagaram completamente.

Escuridão.

O ar ficou frio instantaneamente.

Frio demais.

Lina parou de respirar por um segundo.

Na escuridão absoluta, ouviu alguém sussurrar muito perto do seu ouvido:

— Você já começou a mudar.

Ela girou violentamente.

Nada.

Acendeu a lanterna do celular no exato momento em que a bateria voltou.

A luz revelou o corredor vazio.

Mas não completamente vazio.

Na parede oposta havia outro triângulo.

Maior.

Muito maior.

Recém-desenhado.

A tinta ainda escorria lentamente pelo concreto.

Como sangue diluído em água.

E no centro do símbolo havia três palavras…

Lina sentiu o estômago afundar.

Porque abaixo das palavras existiam três nomes escritos.

O primeiro estava borrado.

O segundo ela não conhecia.

Mas o terceiro era o dela.

E naquele instante, as luzes do túnel voltaram.

No reflexo da parede molhada, Lina percebeu algo impossível:

Sua sombra não repetiu o movimento dela.

Sua sombra continuou parada.

Observando.

Hiatos

Hiatos de silêncios e portas batendo orquestram a sinfonia do luto naquela noite de meio de semana. Ela partiu e nunca mais voltou denunciava o rádio.  A essência ainda era de vida por mais que o cheiro fosse de morte. Não tem nada doce na partida, é só ruptura mesmo, abrupta, bruta, sem prévia.  Dói demais quando um – e mil – amor se desfaz assim. Despedaço de pés descalços cansados, vagando sem rumo até encontrar um prumo do corpo descansar.

Lá no profundo e frio som de acordes cinzas a dor já nem abala tanto, pois ela acolhe o pranto daqueles que já não querem mais. No rádio, outra pedrada sobre aquele adeus…

… a Deus sobe as nossas preces mais pesadas e apressadas para chegar antes e preparar bom lugar. A gente tenta dissimular, fingir, esconder até que sucumbe a dor de continuar, sem querem, sem poder, sem ter forças, sem encontrar sentido, sentidos ou adjetivos que justifiquem continuar sem querer…

Mas precisamos continuar. Nesse estágio do luto, não é avançar — é permanecer.

É aceitar que o corpo ainda anda enquanto a alma se senta no chão, cansada, tentando entender o impacto. Continuar é respirar mesmo quando o ar pesa, é permitir que o silêncio cumpra seu papel sem exigir respostas imediatas.

Segue-se quando se entende que a ruptura não pede superação apressada, mas integração. A ausência não se fecha; ela se reorganiza dentro de nós. O amor que não tem mais onde pousar vira memória viva, às vezes dor, às vezes abrigo. Não há doçura nisso, apenas verdade.

Continua-se aos poucos:

— quando o pranto deixa de ser urgência e vira companhia;

— quando o rádio ainda dói, mas já não paralisa;

— quando o corpo encontra um prumo mínimo para descansar, mesmo torto.

E, sobretudo, continua-se porque amar não foi erro.

O que se despedaçou não foi o sentido, foi a forma.

A essência permanece — transformada, silenciosa, mais profunda.

Não se trata de “seguir em frente”, mas de seguir com.

Com a falta.

Com o eco.

Com o que ficou.

E isso, embora pesado, já é um modo de continuar.

Colheita

TERRA FÉRTIL

Andei refletindo sobre o significado do nome “Al Janiah”… Já sei que vem do árabe, d’alguma palavra ou expressão que não sei escrever, mas tudo bem, pois posso sentir os seus diferentes significados. É claro que a primeira coisa que me vem em mente é que se trata do meu querido restaurante e espaço cultural Al Janiah, em São Paulo, o qual carrega forte simbolismo político e cultural, que assim consegue de forma muito respeitosa e democrática representar os mais diversos povos, propósitos, causas, públicos e tudo isso aliado a sua luta pela causa palestina – que ouso a dizer que já é universal: clamar por respeito às diferenças e pelo direito a uma vida em paz é legítimo e necessário, em tempos que o mundo, parece-me, prefere normalizar abusos, ataques e absurdos.

Al Janiah é o acolhimento que eu e meus irmãos pretos tivemos após um dos momentos mais difíceis da história recente deste mundo doente, a pandemia, momento que em fomos (a)colhidos e apresentados como frutos da nossa verdade na missão de espalhar a nossa arte como semente por meio da música, a nossa verdade por meio do amor, de somar as nossas forças e com rebeldia, dizer não e se opor a todo e qualquer tipo de preconceito, racismo e violência, e produzir cada vez mais frutos e sementes, pílulas de entusiasmo, fé, paz, alegria, união, respeito, compartilhando os nossos sonhos, os nossos talentos para o bem dos nossos iguais – e dos diferentes. 

Al Janiah é derivado da raiz árabe associada à ideia de colher, produzir, frutificar que tem muita conexão com o que fazemos cada vez que subimos naquele palco gigante e empoderador com a bandeira palestina a fundo. É súbita transgressão e culpa por tamanhos delitos e erros de ser e pensar diferente para o bem do próximo, de acolher a dor de um igual, de abraçar, respeitar e amar as diferenças, sempre. É religião, religação onde estamos juntos e misturados para fazer o que é simples e bom, onde o coletivo é transformação e o individual é soma.

No Al Janiah todos somos ativistas conectados às causas nobres e legítimas, da palestina livre do rio ao mar aos direitos humanos, urbanos, caninos, culturais, boêmios, artísticos, da mulher, dos vulneráveis e, sobretudo, os reais e leias às coisas boas e certas do mundo, sempre do lado certo da história, respeitando as memórias de luta e dor, como uma terra fértil, que já rachou no sol, mas recebe chuvas e sementes, donde brotam melancias para partilhar a mesa, onde tem rodas de conversas e sempre se encontra o entendimento, que geram ações para bem comum entre todos, de onde se colhe cultura, resistência, arte e história. Para todos. Para todas. Para todes.

Al Janiah reserva e preserva um lugar ao sol ou a luz neon para pessoas individualmente e para povos coletivamente, que foram considerados ou são considerados culpados ou excluídos injustamente – como ocorre historicamente com o povo palestino. Ambiguidade quase poética esta: ao mesmo tempo quem colhe é de quem é a acusação. É uma metáfora viva: aquela que colhe frutos, expressa de fertilidade, vida, resistência e continuidade. É um ambiente em que ninguém teme a liberdade. E todos celebram democraticamente a partilha de momentos e futuros melhores. 

Nesse cruzamento de sentidos, nasce o espírito desse espaço: uma terra fértil de cultura, arte e pensamento livre. Um abrigo para vozes silenciadas, um palco para histórias invisíveis, mas incríveis como a minha e de meus irmãos de cor – e semelhante e respeitosamente, de todos as outras de todas as cores também – , pois a nossa luta contra o racismo e a nossa dedicação ao amor é sempre um convite com um brinde à luta e à beleza de existir com dignidade, igualdade e equidade. E isso não pode ter idade na linha histórica do mundo e sim espaço, lugar e essência, como o Al Janiah.

Al Janiah é Palestina. Al Janiah é Bixiga, Bela Vista, Sampa, SP e é o Brasil sem golpe. É América Latina. É mulher, corpos respeitados, copos suados, é arte, é presença. Aqui, cada prato é memória. Cada silêncio é paz. Cada música é manifesto. Cada olhar, cada beijo, cada abraço, cada poesia, são armas. Cada palavra é semente. Cada festa, filosofia – de vida. Cada lágrima das dores e das alegrias dessas lutas nesse mundo regam essa terra fértil onde cada encontro, é uma colheita.

Sergio França
sergiofranca.com
@sergiofrancaz

Multiartista independente, escritor, compositor, fotógrafo, professor, músico, cantor e pianista a frente da A Banda Preta (@abandapreta), projeto iniciado no Al Janiah no pós pandemia, com o projeto Ballares Band (@ballaresband), em celebração a música negra do Brasil do mundo.

O Cordel de Maria São Pedro

Lá no alto do morrão,
Ao fim da rua estreita,
Da Bahia de axé quente
Vive a preta mais valente,
Mora a dona do cordão.
Com seus mais de oitenta e tantos,
Vive arrumando quebrantos,
Alimentando confusão.

Dona Maria, preta e feita,
Com a vassoura e com fé,
Sobe em laje, varre folhas
Cantando e louvando em paz.
— “Mãe, desce daí, mulher!”
Mas ela não volta atrás.
Quer folhas secas e chuchu
Só pra acabar com a paz!

Filha chora, neto reza:
— “Vou filmar pro mundo ver!”
Ela não é preguiçosa,
Forte, ligeira e de fé.
Foi de escada em escada,
Na incansável jornada,
Subindo predestinada
Pra lavar o chão do céu.

Agora ri da comoção
Que deixou no coração
Da família em oração.
Pra Maria de São Pedro
Só ficar aqui no chão,
De onde não tire o pé —
Firme e forte como a fé.
Mais teimosa que o trovão,

Voa mais que avião!
Com seus anos bem contados
E os passos acelerados,
Pra domingo ir na igreja
Com vestido e véu rendado,
Achar tudo engraçado
E cantar hino afinado.
Se eu cair, Deus me levanta!”

E lá vai ela louvando
Uma ladainha santa
E gente se apavorando,
Filha liga pra dar bronca,
Neto liga pra emergência,
E todos numa só crença:
Para logo com essa encrenca!
Mas ela não tá nem aí!

Maria em cima da laje,
Faz o mundo ser o chão:
O joelho nem estala,
A coluna ainda suporta
E Maria diz sorrindo:
Subo em nome de Jesus
E daqui não saio,
Aqui eu não caio, não!

Ei, Maria, ouça aqui
Eu também vou subir aí
E não é por desagravo,
Nem falo por arrogado,
Mas fico bem preocupado.
Nosso Deus é milagroso,
Mas é muito perigoso
Ficar tão perto do céu!

Varreu quintal, varreu rua,
Agora fica na sua,
Ou vamos no delegado
Dar parte da tua conduta:
Tua luta é muito nobre,
Tua história é tão bonita,
Então, sai dessa berlinda
E só fica aqui no chão,

Desce na paz, não sobe mais
Ora, vigia e descansa
As folhas o vento leva,
O chuchu compra na feira.
A sua vida linda derradeira
Essa vida não se leva,
Esse amor não se compra!
Então, Maria, não apronta!

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