O necessário e um pouco mais.

Categoria: Livro

Tríade do Mal – Capítulo 2 — Ecos do Espelho

Na manhã seguinte, a cidade parecia exatamente a mesma.

Os ônibus seguiam lotados.

As pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas.

Os semáforos alternavam suas cores com a precisão indiferente de sempre.

Nada denunciava que, na noite anterior, Lina havia encontrado um símbolo capaz de perturbar tudo aquilo em que acreditava.

Ou talvez denunciasse.

Era ela quem já não enxergava a cidade da mesma forma.

Dormira menos de duas horas.

Sempre que fechava os olhos, via o triângulo desenhado na parede úmida do túnel. Não era apenas a imagem que retornava. Era a sensação de estar sendo observada. Como se aquele desenho tivesse encontrado um lugar dentro de sua memória e agora recusasse partir.

Ao chegar ao instituto onde trabalhava como pesquisadora em comportamento humano, deixou a mochila sobre a mesa e tentou retomar a rotina.

Ligou o computador.

A tela inicial apareceu normalmente.

Até que um pequeno aviso surgiu no canto inferior.

Erro de sincronização.

Ela ignorou.

Abriu sua pasta de pesquisas.

Centenas de arquivos.

Artigos.

Entrevistas.

Experimentos.

Mas uma nova pasta havia surgido.

Ela tinha certeza de que nunca a criara.

O nome era simples.

TRÍADE

Lina permaneceu imóvel.

O cursor do mouse pairava sobre o ícone.

Sentia aquele impulso irracional de não abrir.

Como se soubesse que, depois disso, alguma coisa deixaria de existir.

Respirou fundo.

Clicou.

A pasta continha apenas um documento.

Sem autor.

Sem data.

Sem origem.

Título:

“A natureza do poder não está em dominar pessoas. Está em fazer com que elas desejem ser dominadas.”

Ela franziu a testa.

O texto continuava.

“Todo ser humano possui três impulsos fundamentais. O desejo de ser admirado. O desejo de controlar. O desejo de não sentir culpa.”

“Separados, esses impulsos produzem indivíduos difíceis.”

“Unidos, produzem civilizações.”

Lina fechou o arquivo imediatamente.

Sentiu as mãos frias.

Chamou o técnico de informática.

— Você pode verificar uma coisa para mim?

O rapaz apareceu alguns minutos depois.

Abriu o computador.

Procurou a pasta.

Não encontrou nada.

— Qual pasta?

— A que estava aqui agora.

— Não existe nenhuma pasta nova.

Lina insistiu.

Mostrou onde havia clicado.

A área estava vazia.

O técnico sorriu com gentileza.

— Talvez tenha aberto um arquivo temporário.

Ela agradeceu, embora soubesse que não era isso.

Esperou que ele fosse embora.

Assim que ficou sozinha, a pasta reapareceu.

No mesmo lugar.

Como se jamais tivesse desaparecido.

Dessa vez havia dois documentos.

O segundo possuía apenas uma fotografia.

Três pessoas.

Vestidas formalmente.

Nenhuma sorria.

Atrás delas, na parede de uma sala de reuniões, havia um discreto objeto metálico em forma de triângulo.

No verso da fotografia, digitalizado em alta resolução, lia-se apenas:

“Eles descobriram antes de você.”

Lina ampliou a imagem.

Parou no rosto do homem à esquerda.

Seu coração acelerou.

Conhecia aquele rosto.

Era o professor Augusto Ferraz.

Seu orientador durante o mestrado.

Morto havia nove anos.

Ou, pelo menos, era isso que todos acreditavam.

Naquele instante, alguém bateu três vezes na porta da sala.

Três batidas secas.

Compassadas.

Ela olhou para o relógio.

11h11.

— Entre.

Nenhuma resposta.

Abriu a porta.

O corredor estava vazio.

No chão havia apenas um envelope pardo.

Sem remetente.

Dentro dele, uma única folha.

Sem assinatura.

Escrita à mão, com tinta preta:

“Não procure quem desenhou o símbolo. Procure quem o apagou.”

Antes que pudesse reagir, ouviu vozes vindas da sala ao lado.

Dois professores conversavam.

— Você conheceu o Ferraz?

— Conheci.

— Estranho… às vezes tenho a impressão de que ele nunca foi embora.

Lina voltou lentamente para sua mesa.

Quando olhou para a tela do computador mais uma vez, a pasta TRÍADE havia desaparecido.

Mas algo permanecia.

No monitor desligado, refletido no vidro escuro, ela viu seu próprio rosto.

E, por um breve instante, teve a nítida impressão de que o reflexo sorriu antes dela.

Tríade do Mal | Capítulo 1 — O Símbolo

A chuva começou pouco antes da meia-noite.

Pesada.

Constante.

As ruas pareciam dissolvidas sob o reflexo tremido dos postes antigos, e a cidade carregava aquele silêncio estranho que só existe quando algo ruim ainda não aconteceu — mas já está a caminho.

Lina percebeu o símbolo pela primeira vez às 00h43.

Estava desenhado na parede do túnel da estação desativada da Zona Norte.

Um triângulo preto.

Simples.

Três linhas imperfeitas feitas aparentemente com carvão ou tinta que escorrera lentamente pelo concreto úmido.

Mas havia algo errado nele.

O símbolo parecia… vivo.

Não se movia exatamente.

Mas produzia a sensação desconfortável de que estava observando quem passava.

Lina parou diante da parede.

O corredor estava vazio.

A água pingava do teto em intervalos regulares.

Ela ergueu a lanterna do celular.

No centro do triângulo havia uma frase escrita à mão:

“Todo homem possui três rostos. O último é o que destrói.”

Um arrepio percorreu sua nuca.

Ela fotografou o símbolo.

A tela do celular falhou imediatamente.

Linhas estáticas atravessaram a imagem.

Depois apagou.

— Ótimo… perfeito…

Sua voz ecoou pelo túnel vazio.

Ela tentou ligar o aparelho novamente.

Nada.

Então ouviu passos.

Lentos.

Atrás dela.

Lina virou rápido.

O corredor continuava vazio.

Mas o som não parou.

Passos úmidos.

Arrastados.

Próximos demais.

Seu coração acelerou.

— Tem alguém aí?

Silêncio.

Apenas a chuva distante.

Ela respirou fundo, tentando parecer racional.

Provavelmente um morador de rua.

Talvez algum usuário escondido nos trilhos.

Talvez apenas o eco.

Ela começou a caminhar de volta.

Os passos acompanharam.

Exatamente no mesmo ritmo.

Quando ela acelerava…

eles aceleravam.

Quando diminuía…

eles diminuíam.

Lina não olhou para trás dessa vez.

Continuou andando mais rápido.

O túnel parecia maior agora.

Longo demais.

Como se a saída tivesse se afastado.

As luzes antigas no teto começaram a piscar.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Então apagaram completamente.

Escuridão.

O ar ficou frio instantaneamente.

Frio demais.

Lina parou de respirar por um segundo.

Na escuridão absoluta, ouviu alguém sussurrar muito perto do seu ouvido:

— Você já começou a mudar.

Ela girou violentamente.

Nada.

Acendeu a lanterna do celular no exato momento em que a bateria voltou.

A luz revelou o corredor vazio.

Mas não completamente vazio.

Na parede oposta havia outro triângulo.

Maior.

Muito maior.

Recém-desenhado.

A tinta ainda escorria lentamente pelo concreto.

Como sangue diluído em água.

E no centro do símbolo havia três palavras…

Lina sentiu o estômago afundar.

Porque abaixo das palavras existiam três nomes escritos.

O primeiro estava borrado.

O segundo ela não conhecia.

Mas o terceiro era o dela.

E naquele instante, as luzes do túnel voltaram.

No reflexo da parede molhada, Lina percebeu algo impossível:

Sua sombra não repetiu o movimento dela.

Sua sombra continuou parada.

Observando.

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