Na manhã seguinte, a cidade parecia exatamente a mesma.

Os ônibus seguiam lotados.

As pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas.

Os semáforos alternavam suas cores com a precisão indiferente de sempre.

Nada denunciava que, na noite anterior, Lina havia encontrado um símbolo capaz de perturbar tudo aquilo em que acreditava.

Ou talvez denunciasse.

Era ela quem já não enxergava a cidade da mesma forma.

Dormira menos de duas horas.

Sempre que fechava os olhos, via o triângulo desenhado na parede úmida do túnel. Não era apenas a imagem que retornava. Era a sensação de estar sendo observada. Como se aquele desenho tivesse encontrado um lugar dentro de sua memória e agora recusasse partir.

Ao chegar ao instituto onde trabalhava como pesquisadora em comportamento humano, deixou a mochila sobre a mesa e tentou retomar a rotina.

Ligou o computador.

A tela inicial apareceu normalmente.

Até que um pequeno aviso surgiu no canto inferior.

Erro de sincronização.

Ela ignorou.

Abriu sua pasta de pesquisas.

Centenas de arquivos.

Artigos.

Entrevistas.

Experimentos.

Mas uma nova pasta havia surgido.

Ela tinha certeza de que nunca a criara.

O nome era simples.

TRÍADE

Lina permaneceu imóvel.

O cursor do mouse pairava sobre o ícone.

Sentia aquele impulso irracional de não abrir.

Como se soubesse que, depois disso, alguma coisa deixaria de existir.

Respirou fundo.

Clicou.

A pasta continha apenas um documento.

Sem autor.

Sem data.

Sem origem.

Título:

“A natureza do poder não está em dominar pessoas. Está em fazer com que elas desejem ser dominadas.”

Ela franziu a testa.

O texto continuava.

“Todo ser humano possui três impulsos fundamentais. O desejo de ser admirado. O desejo de controlar. O desejo de não sentir culpa.”

“Separados, esses impulsos produzem indivíduos difíceis.”

“Unidos, produzem civilizações.”

Lina fechou o arquivo imediatamente.

Sentiu as mãos frias.

Chamou o técnico de informática.

— Você pode verificar uma coisa para mim?

O rapaz apareceu alguns minutos depois.

Abriu o computador.

Procurou a pasta.

Não encontrou nada.

— Qual pasta?

— A que estava aqui agora.

— Não existe nenhuma pasta nova.

Lina insistiu.

Mostrou onde havia clicado.

A área estava vazia.

O técnico sorriu com gentileza.

— Talvez tenha aberto um arquivo temporário.

Ela agradeceu, embora soubesse que não era isso.

Esperou que ele fosse embora.

Assim que ficou sozinha, a pasta reapareceu.

No mesmo lugar.

Como se jamais tivesse desaparecido.

Dessa vez havia dois documentos.

O segundo possuía apenas uma fotografia.

Três pessoas.

Vestidas formalmente.

Nenhuma sorria.

Atrás delas, na parede de uma sala de reuniões, havia um discreto objeto metálico em forma de triângulo.

No verso da fotografia, digitalizado em alta resolução, lia-se apenas:

“Eles descobriram antes de você.”

Lina ampliou a imagem.

Parou no rosto do homem à esquerda.

Seu coração acelerou.

Conhecia aquele rosto.

Era o professor Augusto Ferraz.

Seu orientador durante o mestrado.

Morto havia nove anos.

Ou, pelo menos, era isso que todos acreditavam.

Naquele instante, alguém bateu três vezes na porta da sala.

Três batidas secas.

Compassadas.

Ela olhou para o relógio.

11h11.

— Entre.

Nenhuma resposta.

Abriu a porta.

O corredor estava vazio.

No chão havia apenas um envelope pardo.

Sem remetente.

Dentro dele, uma única folha.

Sem assinatura.

Escrita à mão, com tinta preta:

“Não procure quem desenhou o símbolo. Procure quem o apagou.”

Antes que pudesse reagir, ouviu vozes vindas da sala ao lado.

Dois professores conversavam.

— Você conheceu o Ferraz?

— Conheci.

— Estranho… às vezes tenho a impressão de que ele nunca foi embora.

Lina voltou lentamente para sua mesa.

Quando olhou para a tela do computador mais uma vez, a pasta TRÍADE havia desaparecido.

Mas algo permanecia.

No monitor desligado, refletido no vidro escuro, ela viu seu próprio rosto.

E, por um breve instante, teve a nítida impressão de que o reflexo sorriu antes dela.