A chuva havia cessado.

Mas a cidade continuava molhada.

Lina caminhava lentamente pela calçada, segurando o envelope pardo dentro da mochila como se carregasse uma prova de um crime. Desde a manhã, tentava convencer a si mesma de que tudo podia ser explicado.

Um erro no computador.

Uma coincidência.

Uma brincadeira de mau gosto.

Entretanto, havia uma pergunta que insistia em permanecer.

Como alguém poderia conhecer um professor morto havia nove anos?


Naquela noite, o apartamento parecia menor.

Ela espalhou sobre a mesa tudo o que havia reunido durante o dia.

A fotografia.

O bilhete.

As anotações.

Uma impressão da frase encontrada no computador.

No centro da mesa escreveu apenas uma palavra:

TRÍADE

Traçou um círculo ao redor.

Depois outro.

Em seguida começou a ligar os acontecimentos com linhas vermelhas, tentando encontrar um padrão.

Quarenta minutos depois, a folha parecia um labirinto.

Mas havia apenas uma conclusão possível.

Alguém estava conduzindo cada descoberta.

Nada acontecia por acaso.


Às 22h17, seu telefone tocou.

Número desconhecido.

Ela hesitou antes de atender.

— Alô?

Nenhuma resposta.

Apenas uma respiração lenta.

Regular.

Como se quem estivesse do outro lado esperasse que ela dissesse alguma coisa primeiro.

— Quem está falando?

Silêncio.

Então uma voz masculina, grave, quase sussurrando:

— Você abriu o arquivo.

A ligação caiu.

Lina permaneceu imóvel.

O celular vibrou novamente.

Dessa vez, uma mensagem.

“Não pesquise pela Tríade. Procure pelo Arquivo 314.”

Nenhum remetente.

Ela tentou responder.

A mensagem desapareceu da tela.

Como se nunca tivesse existido.


Na manhã seguinte, decidiu ir ao Arquivo Público Estadual.

O prédio ocupava um antigo palacete adaptado para armazenar documentos históricos.

O cheiro de papel envelhecido misturava-se ao de madeira úmida.

No balcão de atendimento, um senhor de cabelos completamente brancos levantou os olhos dos formulários.

— Posso ajudar?

— Estou procurando um documento antigo.

— Tem alguma referência?

— Arquivo trezentos e quatorze.

O homem congelou.

Por apenas um segundo.

Mas Lina percebeu.

Ele voltou a sorrir.

Um sorriso pequeno.

Forçado.

— Não existe nenhum arquivo com essa numeração.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ela agradeceu e se afastou.

Antes de alcançar a porta, ouviu uma voz baixa atrás de si.

— Espere.

Era uma funcionária.

Jovem.

Talvez trinta anos.

Usava crachá, mas o nome estava coberto por um adesivo.

Ela falou quase sem mover os lábios.

— Volte às cinco da tarde.

Quando todos forem embora.

E não entre pela porta principal.


Às 17h03, o prédio estava praticamente vazio.

Lina seguiu as instruções.

Entrou pelos fundos.

A funcionária a esperava perto do elevador de carga.

Sem dizer uma palavra, entregou-lhe uma pequena chave de bronze.

— Subsolo.

Corredor C.

Última porta.

Se encontrar o Arquivo 314…

Não leia tudo.

Ela quis perguntar por quê.

Mas a mulher já havia desaparecido entre as estantes.


O corredor C era frio.

As lâmpadas fluorescentes piscavam em intervalos irregulares.

As portas estavam identificadas por números metálicos.

301.

302.

303.

304.

A porta seguinte não tinha placa.

Apenas marcas de parafusos, como se alguém tivesse arrancado a identificação.

A chave girou com dificuldade.

A porta abriu lentamente.

O ar ali dentro era diferente.

Pesado.

Parado.

No centro da pequena sala havia apenas uma mesa de ferro.

Sobre ela, uma caixa de documentos.

Na tampa, escrito com tinta desbotada:

ARQUIVO 314

Lina retirou a tampa.

Dentro havia dezenas de pastas.

A primeira continha relatórios médicos.

A segunda, fotografias.

A terceira, gravações transcritas de entrevistas.

Todas tinham a mesma data.

17 de setembro de 1989.

Ela abriu o primeiro relatório.

Experimento interrompido às 03h18.

Os voluntários passaram a apresentar comportamento convergente.

Os níveis de narcisismo, manipulação e ausência de culpa aumentaram simultaneamente.

O fenômeno recebeu o nome provisório de Tríade do Mal.

Lina sentiu o coração acelerar.

Aquilo não era uma teoria.

Era um projeto.

Um projeto conduzido por cientistas.

Ela continuou lendo.

Até encontrar a última página.

No rodapé havia uma lista com os nomes da equipe de pesquisa.

O primeiro nome era desconhecido.

O segundo também.

O terceiro fez o ar desaparecer de seus pulmões.

Prof. Augusto Ferraz.

Seu orientador.

Oficialmente morto.

Mas registrado como pesquisador-chefe de um projeto encerrado apenas quatro anos antes de seu suposto falecimento.

Lina fechou a pasta lentamente.

Então percebeu algo que não estava ali quando entrou.

Na parede à sua frente, alguém havia escrito uma frase.

Com tinta preta ainda escorrendo.

“Quem conhece a Tríade deixa de estudá-la. Passa a fazer parte dela.”

A luz apagou.

No escuro, ouviu o som de uma cadeira sendo arrastada.

Ela não estava mais sozinha.