A tempestade não mata.
Mata o silêncio que vem depois. Mata a espera por quem prometeu abrigo e fechou a porta na primeira trovoada. Mata descobrir que alguns dos que seguravam nossas mãos eram os mesmos que desejavam nos ver afundar.
A tempestade não mata. Ela arranca os telhados, derruba as paredes, leva embora os retratos e espalha pelo chão aquilo que passamos a vida inteira tentando manter de pé.
Mas não mata.
O que mata é a mentira vestida de verdade. É a maldade disfarçada de cuidado. É a covardia de quem provoca o naufrágio e depois aparece na praia perguntando pelos sobreviventes.
E a gente sobrevive.
Às vezes sem rumo, sem guarda-chuva, sem vontade de olhar pela janela. Sobrevive encharcado de decepções, carregando nos bolsos algumas lembranças molhadas e a estranha sensação de ter perdido mais do que possuía.
Até que um dia o sol aparece.
Não para pedir desculpas. Não para devolver o que a chuva levou. Apenas aparece, indiferente às nossas tragédias, como se nada tivesse acontecido.
E talvez essa seja a maior crueldade e a maior beleza da vida: o mundo continua, mesmo quando alguma coisa dentro de nós desaba.
A tempestade não mata.
Mas há quem passe o resto da vida tentando descobrir se aquilo que sobreviveu ainda pode ser chamado de vida.
Deixe um comentário