Entre a lucidez, a memória e a esperança.
Agora, um café quente. Forte. Racional, como sempre. Café com o meu país.
Depois, os próximos copos americanos — talvez a única coisa verdadeiramente americana que ainda permitimos à nossa mesa — serão de cerveja e emoção. E emoções. Porque há dias em que a razão precisa de café, a coragem precisa de companhia e o coração precisa transbordar para não morrer afogado em silêncio.
E não estamos sós. Somos milhões.
Somos a soma de nossos sonhos, das nossas diferenças, das nossas cicatrizes e dos nossos ideais de futuro. Um futuro sem medo, sem mácula, sem a vergonha de existir, de resistir, de insistir em acreditar que a vida pode ser mais justa do que tem sido.
Boca aberta. Pés no chão. Mãos aos céus. Coração no peito. E, sobre nossas cabeças, o mesmo sol.
Um sol que não pergunta em quem votamos antes de nos aquecer. Que não escolhe sobrenomes, endereços, cores ou crenças para nascer. Que ilumina o rosto cansado de quem acorda antes da cidade, atravessa a madrugada e carrega nas costas um país inteiro sem sequer caber nas estatísticas de quem governa.
Precisamos de um abraço. Desses demorados, acolhedores, calorosos. Um abraço que nos ajude a suportar o peso de um desfecho duvidoso, de um caminho que será trilhado por todos, embora tantas decisões ainda sejam tomadas por tão poucos.
Poucos que gritam muito. Loucos de acreditar nas próprias mentiras. Roucos de esbravejar tanto ódio. Tão ocupados em apontar inimigos que já não conseguem reconhecer o semelhante.
E a mentira, essa velha conhecida da humanidade, continua encontrando roupas novas para desfilar pelas ruas. Veste-se de notícia, de promessa, de salvação. Entra pelas telas, senta-se às mesas, interrompe conversas, divide famílias, desmancha amizades e transforma dúvidas em certezas fabricadas.
A verdade, coitada, precisa trabalhar dobrado.
Precisa apresentar documentos, testemunhas, provas, números e fontes. Enquanto isso, a mentira atravessa a cidade de motocicleta, sem capacete, sem freio, sem vergonha. Chega primeiro. Grita mais alto. E ainda encontra quem lhe ofereça café.
Mas permaneço do lado da história em que escolhi estar.
Onde a memória e a ancestralidade não se confundem: fundem-se.
Onde os mortos não desaparecem completamente, porque continuam vivos nas mãos que trabalham, nas vozes que cantam, nos corpos que dançam, nas crianças que perguntam e nas mulheres que nunca deixaram de sustentar o mundo, mesmo quando o mundo lhes negou uma cadeira à mesa.
Fico na pureza das perguntas das crianças.
Fico sentado ao lado de uma mãe que chora, segurando sua mão sem oferecer respostas fáceis. Porque nem toda dor precisa de discurso. Às vezes, a dignidade começa quando alguém se senta ao nosso lado e não vai embora.
Fico ao lado do esquecido que implora, do trabalhador que espera, do velho que recorda, do jovem que sonha, de quem perdeu quase tudo, mas ainda guarda uma pequena porção de esperança no bolso furado da calça.
Fico junto e misturado.
Misturado a esse bando de loucos caçadores de esperança. Gente de mãos calejadas, olhos cansados, gargantas roucas de tanto cantar a luta. Gente que cai, levanta, tropeça, se abraça, discorda, conversa e continua.
Porque democracia também é isso: aprender a dividir a mesma rua com quem pensa diferente sem desejar que o outro desapareça.
É compreender que a liberdade não pode ser privilégio de alguns, que a justiça não deveria depender do endereço e que a verdade não se estabelece pela quantidade de pessoas que repetem uma mentira.
Existe um pleito nas ruas, nas redes, nas casas, nas escolas, nos servidores e nos corações.
Uma disputa que ultrapassa as urnas e alcança aquilo que estamos dispostos a ensinar às próximas gerações.
O que diremos às crianças quando elas perguntarem o que fizemos enquanto o ódio ocupava as conversas?
Que nos calamos?
Que compartilhamos sem ler?
Que confundimos convicção com conhecimento, opinião com evidência, popularidade com verdade?
Ou diremos que tivemos coragem de perguntar, de ouvir, de discordar sem desumanizar, de reconhecer os próprios erros e de defender o direito de todos à existência?
A verdade se enfraquece enquanto a mentira se cria.
E há algo terrível nisso: a mentira não precisa vencer para produzir estragos. Basta espalhar a dúvida suficiente para que ninguém mais confie em ninguém.
Quiçá já tenhamos perdido alguma coisa diante desses fatos.
Talvez a inocência. Talvez o tempo. Talvez amigos, afetos, encontros e domingos inteiros que poderiam ter sido dedicados à vida, mas foram consumidos por discussões que terminaram em portas batidas e cadeiras vazias.
Perdemos conversas. Perdemos abraços. Perdemos a delicadeza de escutar.
Mas não perdemos tudo.
Enquanto houver alguém disposto a estender a mão, haverá um começo.
Enquanto houver uma criança fazendo perguntas, haverá uma razão para procurar respostas.
Enquanto houver memória, haverá caminhos para compreender o passado.
E enquanto houver gente capaz de sonhar coletivamente, o futuro não será propriedade exclusiva de ninguém.
Hoje, passado e presente sentam-se à mesma mesa para conversar com o futuro.
O passado traz suas feridas. O presente chega atrasado, cansado, carregando contas, notícias e contradições. O futuro, ainda menino, observa tudo em silêncio.
Pede um copo d’água.
E pergunta:
— Vocês vão deixar alguma coisa boa para mim?
Ninguém responde imediatamente.
O café esfria.
A cerveja esquenta.
O silêncio pesa.
E talvez seja justamente essa a pergunta que precisamos responder todos os dias, não apenas nas eleições, mas no trabalho, nas escolas, nas ruas, nas relações e nas pequenas decisões que revelam quem somos quando ninguém está olhando.
Porque um país não se constrói apenas com grandes discursos. Constrói-se também com a honestidade de quem não aceita pequenas injustiças, com a coragem de quem reconhece seus erros e com a humanidade de quem se recusa a transformar diferenças em inimigos.
Não quero um país onde todos pensem como eu.
Quero um país onde ninguém precise ter medo de pensar, de perguntar, de existir.
Onde a democracia não seja apenas uma palavra bonita nas campanhas, mas uma prática cotidiana. Onde a liberdade caminhe de mãos dadas com a responsabilidade. Onde a esperança não seja mercadoria eleitoral, mas compromisso humano.
E se a caminhada for longa, que seja.
Se a noite for fria, acendamos alguma luz.
Se a voz falhar, que outros continuem a canção.
Se o medo chegar, que encontre a coragem sentada à mesa, tomando café com a consciência.
Somos milhões. Mas cada um de nós continua sendo alguém. Um rosto. Uma história. Uma ausência. Uma presença. Um sonho que ainda não encontrou seu lugar.
E é por isso que seguimos.
Não pela certeza de vencer todas as disputas, mas pela convicção de que nenhuma derrota precisa ser o fim da nossa capacidade de transformar.
Nunca vamos correr da luta.
Porque lutar também é educar, cuidar, acolher, construir, questionar e amar.
E se algum dia vencermos verdadeiramente, que a vitória não seja medida pela humilhação de quem perdeu, mas pela dignidade que todos puderem conquistar.
Agora, mais um café.
Quente. Forte. Racional.
Café com o meu país.
Depois, quem sabe, uma cerveja no copo americano, uma música antiga, alguns amigos, muitas histórias e aquela esperança teimosa que insiste em sobreviver até aos nossos piores dias.
Porque amanhã o sol nascerá outra vez.
E que nos encontre de pé.
De mãos dadas, pés no chão, olhos abertos e coração inteiro.
Ainda somos milhões.
E ainda temos um país para construir.
Fadario Foster
Café com o Meu País — Outubro de 2026
Deixe um comentário