O fim não é triste, é um estranho familiar

Chega como quem já esteve ali. Não toca a campainha, não pede licença, não se desculpa pelo horário. Entra, puxa uma cadeira, senta-se à mesa e observa tudo com a intimidade inconveniente de quem conhece a casa, seus moradores e os segredos escondidos nas gavetas.

Às vezes, pede um café. Outras, apenas espera.

Não tem pressa. Nunca teve.

Somos nós que vivemos correndo, tentando chegar a algum lugar, alcançar alguma coisa, encontrar alguém, recuperar o que perdemos ou impedir que aquilo que amamos desapareça. Corremos tanto que raramente percebemos quantas vezes o fim já caminhou ao nosso lado.

Ele esteve no último abraço que parecia apenas mais um. Na conversa interrompida por uma banalidade qualquer. Na fotografia tirada sem imaginar que seria a última. Esteve naquele domingo comum, na xícara esquecida sobre a mesa, na roupa que ainda guardava um perfume, na voz que, de repente, passou a existir apenas na memória.

E ninguém nos avisou.

Talvez porque os fins verdadeiros raramente façam anúncios. Não chegam acompanhados de grandes discursos, trilhas sonoras ou explicações convincentes. Simplesmente acontecem. Algumas vezes diante dos nossos olhos. Outras, enquanto estamos distraídos vivendo.

Há amores que terminam muito antes da despedida. Amizades que morrem lentamente entre duas mensagens não respondidas. Sonhos que envelhecem dentro de nós sem jamais conhecerem a luz do dia. E há pessoas que continuam presentes, sentadas à nossa frente, conversando sobre o tempo, o trânsito e o preço das coisas, embora já tenham partido de nossas vidas há muito tempo.

Essas são as despedidas mais estranhas. Aquelas em que ninguém vai embora, mas ninguém permanece.

Durante anos, acreditei que todo fim precisava de uma explicação. Uma razão definitiva, uma culpa reconhecida, uma última conversa capaz de colocar cada coisa em seu devido lugar. Como se a vida fosse um livro bem escrito, no qual todos os personagens recebessem a oportunidade de compreender o próprio destino antes da última página.

Mas a vida não tem esse compromisso com a literatura.

Ela deixa frases pela metade, perguntas sem resposta, promessas esquecidas e personagens que desaparecem sem qualquer consideração pelo leitor.

E seguimos.

Seguimos porque o aluguel vence, porque a fome chega, porque alguém telefona, porque a roupa precisa ser lavada e porque, por mais devastadora que tenha sido a noite, a manhã insiste em acontecer.

Existe uma crueldade quase cômica nessa indiferença do mundo. Podemos perder um amor numa terça-feira e, na quarta, ainda precisar comprar pão. Podemos enterrar alguém numa sexta e descobrir, no sábado, que a torneira da cozinha continua vazando.

A vida não suspende suas pequenas obrigações em respeito às nossas grandes tragédias.

Talvez seja por isso que sobrevivemos.

Não por coragem extraordinária, nem por alguma sabedoria adquirida nas derrotas. Sobrevivemos porque os dias continuam chegando, um depois do outro, empurrando-nos discretamente para diante, mesmo quando uma parte de nós insiste em permanecer no lugar onde tudo terminou.

Com o tempo, aprendemos que nem toda ausência é uma perda. Algumas são libertações que demoram a ser reconhecidas. Nem toda despedida é uma tragédia. Algumas são apenas o último gesto de honestidade entre pessoas que já não conseguem permanecer juntas sem destruir aquilo que um dia foi bonito.

E nem todo silêncio significa vazio.

Há silêncios cheios de compreensão. Outros, de cansaço. Alguns guardam uma dignidade que as palavras já não conseguem sustentar.

Envelhecer talvez seja aprender a distinguir uns dos outros.

O curioso é que, depois de tantos encontros com o fim, ainda nos surpreendemos quando ele aparece. Reconhecemos seu rosto, seus gestos, seu jeito de ocupar os espaços. Sabemos até o barulho que faz ao arrastar a cadeira. Mas continuamos perguntando o que veio fazer ali.

Ele não responde.

Nunca responde.

Apenas nos olha como quem sabe que, no fundo, já compreendemos.

E então percebemos que o fim não levou tudo. Ficaram os hábitos, as músicas, os lugares, os pequenos vícios de linguagem. Ficou uma maneira diferente de olhar o mundo. Ficaram cicatrizes que já não doem, mas que ainda reconhecemos quando passamos os dedos sobre elas.

Ficou, sobretudo, aquilo que fomos enquanto alguma coisa existia.

Porque todo fim, por mais definitivo que pareça, é também o testemunho de que alguma coisa aconteceu. Que houve presença, desejo, esperança, entrega. Que alguém esteve ali. Que uma história, mesmo imperfeita, encontrou tempo e espaço para existir.

E isso não é pouco.

Hoje, quando o fim aparece, já não faço tantas perguntas. Às vezes, ofereço café. Abro a janela. Deixo que se sente. Não porque tenha aprendido a gostar de sua companhia, mas porque compreendi a inutilidade de expulsar alguém que conhece tão bem o caminho de volta.

Conversamos pouco.

Ele observa a casa. Eu observo o tempo.

Lá fora, as pessoas continuam atravessando a rua, os ônibus continuam atrasados, os bares continuam abrindo e fechando. Em algum lugar, duas pessoas se apaixonam. Em outro, duas pessoas deixam de se amar. Uma criança nasce. Um velho fecha os olhos. Alguém faz planos para o próximo verão.

E o mundo segue, indiferente e extraordinário.

Antes de sair, o fim costuma olhar para trás. Não diz adeus. Talvez porque saiba que voltará. Talvez porque, depois de tantas visitas, as despedidas tenham perdido a necessidade de palavras.

Dessa vez, porém, percebo algo diferente.

Já não sinto vontade de perguntar por que veio.

Apenas me levanto, recolho as xícaras e acompanho seus passos até a porta.

Ele parte.

Eu fico.

E, pela primeira vez, compreendo que permanecer também é uma forma de despedida.

O fim não é triste. É um estranho familiar.

Triste, talvez, seja passar a vida inteira tentando evitá-lo e, por medo de perder, esquecer de viver aquilo que ainda não terminou.

— Sergio França