OUTRA VEZ. DE NOVO.
Por Fadario Foster
A maldade e a mentira me passaram uma rasteira. Outra vez.
E eu não caí. Fui derrubado.
Outra vez. De novo.
Há uma diferença enorme entre cair e ser derrubado. Quem cai pode ter tropeçado nos próprios pés, calculado mal a distância, bebido demais ou simplesmente perdido o equilíbrio. Mas quem é derrubado conhece o peso da intenção alheia. Sente a violência de uma mão invisível, a covardia de um gesto calculado, a precisão miserável de quem sabe exatamente onde machucar.
E machuca.
Porra, como machuca.
Não pelo tombo. A gente aprende a suportar a dor dos joelhos ralados, das costas no chão, dos dentes cerrados. O que dói é descobrir que a rasteira veio justamente de quem caminhava ao nosso lado. De quem conhecia nossos passos, nossas cicatrizes, nossas dificuldades para continuar de pé.
A mentira é uma filha da puta bem-vestida. Usa perfume caro, fala baixo, sorri bonito e sabe olhar nos olhos. A maldade, por sua vez, é mais ordinária. Não precisa de grandes argumentos. Basta encontrar uma oportunidade, uma fraqueza, uma porta entreaberta.
Quando as duas se encontram, fazem uma bela sociedade.
E quase sempre sobra para quem ainda acredita nas pessoas.
Eu sei. Parece estupidez continuar acreditando depois de tantas decepções. Talvez seja. Talvez a esperança seja apenas uma forma sofisticada de burrice. Mas há alguma coisa dentro de mim que se recusa a aceitar que o mundo pertença exclusivamente aos canalhas.
Não sou santo. Nunca fui. Tenho meus pecados, minhas contradições, minhas pequenas misérias particulares. Já errei com pessoas, já disse coisas que deveria ter engolido, já me calei quando precisava gritar. Mas existe uma distância imensa entre ser imperfeito e ser deliberadamente cruel.
E essa distância não se mede em metros.
Mede-se em caráter.
O pior é que a mentira raramente anda sozinha. Precisa de plateia, de cúmplices, de gente disposta a acreditar na primeira versão porque investigar a verdade dá trabalho. E há sempre aqueles que sabem de tudo, mas preferem não se envolver. Os covardes de mãos limpas. Os diplomatas da desgraça. Os que assistem à injustiça e depois perguntam por que a vítima está tão revoltada.
Como se a indignação fosse um defeito.
Como se a dor precisasse pedir licença.
Outra vez.
De novo.
Estou cansado dessa repetição. Cansado de aprender as mesmas lições com professores diferentes. Cansado de descobrir que algumas pessoas não têm limites, apenas oportunidades. Cansado de ouvir que tudo acontece por algum motivo, como se a crueldade precisasse de uma explicação divina para deixar de ser uma escolha humana.
Às vezes, a vida simplesmente é uma merda.
E pronto.
Não quero transformar cada ferida numa lição de superação. Nem toda dor ensina. Algumas apenas doem. Algumas roubam o sono, o apetite, a vontade de conversar. Outras fazem a gente envelhecer dez anos numa única tarde.
Há dias em que sobreviver não tem absolutamente nada de heroico.
É apenas continuar respirando.
E talvez seja isso que mais incomode aqueles que tentaram me derrubar: eu continuo aqui. Não intacto. Não invencível. Muito menos indiferente.
Continuo aqui, com alguma coisa quebrada por dentro, tentando entender por que ainda me surpreendo com a maldade humana.
Talvez porque eu não queira me acostumar.
Porque o dia em que a mentira deixar de me indignar será o dia em que alguma coisa essencial terá morrido dentro de mim.
E eu já enterrei coisas demais.
Hoje não quero perdoar ninguém. Não quero discursos sobre evolução espiritual, vibrações positivas ou a obrigação moral de compreender quem me feriu. Quero apenas o direito de estar puto. De sentir a pancada. De reconhecer a injustiça sem precisar transformá-la imediatamente numa oportunidade de crescimento.
Amanhã talvez eu pense diferente.
Hoje, não.
Hoje vou recolher o que sobrou de mim, lavar o rosto, preparar um café forte e olhar pela janela enquanto o mundo continua sua rotina indiferente.
Lá fora, alguém estará mentindo. Alguém estará acreditando. Alguém estará traindo uma confiança antiga por uma vantagem pequena.
E alguém, em algum lugar, estará sendo derrubado pela primeira vez.
Eu gostaria de dizer a essa pessoa que tudo passa.
Mas estaria mentindo.
Algumas coisas não passam. Apenas encontram um lugar menos barulhento dentro da gente.
A maldade e a mentira me passaram uma rasteira.
Outra vez.
E eu não caí.
Fui derrubado.
Mas há uma última diferença que esses filhos da puta talvez nunca compreendam:
Derrubar alguém é um ato de força ou covardia. Mantê-lo no chão exige que ele desista de si mesmo.
E eu ainda não desisti.
Não por coragem.
Não por orgulho.
Muito menos para provar alguma coisa a alguém.
É que, apesar de tudo, ainda tenho uma vida para viver.
E seria uma sacanagem dos diabos deixar que a mentira dos outros escrevesse o último parágrafo da minha história.
Fadario Foster