A chuva começou pouco antes da meia-noite.
Pesada.
Constante.
As ruas pareciam dissolvidas sob o reflexo tremido dos postes antigos, e a cidade carregava aquele silêncio estranho que só existe quando algo ruim ainda não aconteceu — mas já está a caminho.
Lina percebeu o símbolo pela primeira vez às 00h43.
Estava desenhado na parede do túnel da estação desativada da Zona Norte.
Um triângulo preto.
Simples.
Três linhas imperfeitas feitas aparentemente com carvão ou tinta que escorrera lentamente pelo concreto úmido.
Mas havia algo errado nele.
O símbolo parecia… vivo.
Não se movia exatamente.
Mas produzia a sensação desconfortável de que estava observando quem passava.
Lina parou diante da parede.
O corredor estava vazio.
A água pingava do teto em intervalos regulares.
Ela ergueu a lanterna do celular.
No centro do triângulo havia uma frase escrita à mão:
“Todo homem possui três rostos. O último é o que destrói.”
Um arrepio percorreu sua nuca.
Ela fotografou o símbolo.
A tela do celular falhou imediatamente.
Linhas estáticas atravessaram a imagem.
Depois apagou.
— Ótimo… perfeito…
Sua voz ecoou pelo túnel vazio.
Ela tentou ligar o aparelho novamente.
Nada.
Então ouviu passos.
Lentos.
Atrás dela.
Lina virou rápido.
O corredor continuava vazio.
Mas o som não parou.
Passos úmidos.
Arrastados.
Próximos demais.
Seu coração acelerou.
— Tem alguém aí?
Silêncio.
Apenas a chuva distante.
Ela respirou fundo, tentando parecer racional.
Provavelmente um morador de rua.
Talvez algum usuário escondido nos trilhos.
Talvez apenas o eco.
Ela começou a caminhar de volta.
Os passos acompanharam.
Exatamente no mesmo ritmo.
Quando ela acelerava…
eles aceleravam.
Quando diminuía…
eles diminuíam.
Lina não olhou para trás dessa vez.
Continuou andando mais rápido.
O túnel parecia maior agora.
Longo demais.
Como se a saída tivesse se afastado.
As luzes antigas no teto começaram a piscar.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Então apagaram completamente.
Escuridão.
O ar ficou frio instantaneamente.
Frio demais.
Lina parou de respirar por um segundo.
Na escuridão absoluta, ouviu alguém sussurrar muito perto do seu ouvido:
— Você já começou a mudar.
Ela girou violentamente.
Nada.
Acendeu a lanterna do celular no exato momento em que a bateria voltou.
A luz revelou o corredor vazio.
Mas não completamente vazio.
Na parede oposta havia outro triângulo.
Maior.
Muito maior.
Recém-desenhado.
A tinta ainda escorria lentamente pelo concreto.
Como sangue diluído em água.
E no centro do símbolo havia três palavras…
Lina sentiu o estômago afundar.
Porque abaixo das palavras existiam três nomes escritos.
O primeiro estava borrado.
O segundo ela não conhecia.
Mas o terceiro era o dela.
E naquele instante, as luzes do túnel voltaram.
No reflexo da parede molhada, Lina percebeu algo impossível:
Sua sombra não repetiu o movimento dela.
Sua sombra continuou parada.
Observando.