Sergio França

O necessário e um pouco mais.

CAFÉ COM MEU PAÍS

Entre a lucidez, a memória e a esperança.

Agora, um café quente. Forte. Racional, como sempre. Café com o meu país.

Depois, os próximos copos americanos — talvez a única coisa verdadeiramente americana que ainda permitimos à nossa mesa — serão de cerveja e emoção. E emoções. Porque há dias em que a razão precisa de café, a coragem precisa de companhia e o coração precisa transbordar para não morrer afogado em silêncio.

E não estamos sós. Somos milhões.

Somos a soma de nossos sonhos, das nossas diferenças, das nossas cicatrizes e dos nossos ideais de futuro. Um futuro sem medo, sem mácula, sem a vergonha de existir, de resistir, de insistir em acreditar que a vida pode ser mais justa do que tem sido.

Boca aberta. Pés no chão. Mãos aos céus. Coração no peito. E, sobre nossas cabeças, o mesmo sol.

Um sol que não pergunta em quem votamos antes de nos aquecer. Que não escolhe sobrenomes, endereços, cores ou crenças para nascer. Que ilumina o rosto cansado de quem acorda antes da cidade, atravessa a madrugada e carrega nas costas um país inteiro sem sequer caber nas estatísticas de quem governa.

Precisamos de um abraço. Desses demorados, acolhedores, calorosos. Um abraço que nos ajude a suportar o peso de um desfecho duvidoso, de um caminho que será trilhado por todos, embora tantas decisões ainda sejam tomadas por tão poucos.

Poucos que gritam muito. Loucos de acreditar nas próprias mentiras. Roucos de esbravejar tanto ódio. Tão ocupados em apontar inimigos que já não conseguem reconhecer o semelhante.

E a mentira, essa velha conhecida da humanidade, continua encontrando roupas novas para desfilar pelas ruas. Veste-se de notícia, de promessa, de salvação. Entra pelas telas, senta-se às mesas, interrompe conversas, divide famílias, desmancha amizades e transforma dúvidas em certezas fabricadas.

A verdade, coitada, precisa trabalhar dobrado.

Precisa apresentar documentos, testemunhas, provas, números e fontes. Enquanto isso, a mentira atravessa a cidade de motocicleta, sem capacete, sem freio, sem vergonha. Chega primeiro. Grita mais alto. E ainda encontra quem lhe ofereça café.

Mas permaneço do lado da história em que escolhi estar.

Onde a memória e a ancestralidade não se confundem: fundem-se.

Onde os mortos não desaparecem completamente, porque continuam vivos nas mãos que trabalham, nas vozes que cantam, nos corpos que dançam, nas crianças que perguntam e nas mulheres que nunca deixaram de sustentar o mundo, mesmo quando o mundo lhes negou uma cadeira à mesa.

Fico na pureza das perguntas das crianças.

Fico sentado ao lado de uma mãe que chora, segurando sua mão sem oferecer respostas fáceis. Porque nem toda dor precisa de discurso. Às vezes, a dignidade começa quando alguém se senta ao nosso lado e não vai embora.

Fico ao lado do esquecido que implora, do trabalhador que espera, do velho que recorda, do jovem que sonha, de quem perdeu quase tudo, mas ainda guarda uma pequena porção de esperança no bolso furado da calça.

Fico junto e misturado.

Misturado a esse bando de loucos caçadores de esperança. Gente de mãos calejadas, olhos cansados, gargantas roucas de tanto cantar a luta. Gente que cai, levanta, tropeça, se abraça, discorda, conversa e continua.

Porque democracia também é isso: aprender a dividir a mesma rua com quem pensa diferente sem desejar que o outro desapareça.

É compreender que a liberdade não pode ser privilégio de alguns, que a justiça não deveria depender do endereço e que a verdade não se estabelece pela quantidade de pessoas que repetem uma mentira.

Existe um pleito nas ruas, nas redes, nas casas, nas escolas, nos servidores e nos corações.

Uma disputa que ultrapassa as urnas e alcança aquilo que estamos dispostos a ensinar às próximas gerações.

O que diremos às crianças quando elas perguntarem o que fizemos enquanto o ódio ocupava as conversas?

Que nos calamos?

Que compartilhamos sem ler?

Que confundimos convicção com conhecimento, opinião com evidência, popularidade com verdade?

Ou diremos que tivemos coragem de perguntar, de ouvir, de discordar sem desumanizar, de reconhecer os próprios erros e de defender o direito de todos à existência?

A verdade se enfraquece enquanto a mentira se cria.

E há algo terrível nisso: a mentira não precisa vencer para produzir estragos. Basta espalhar a dúvida suficiente para que ninguém mais confie em ninguém.

Quiçá já tenhamos perdido alguma coisa diante desses fatos.

Talvez a inocência. Talvez o tempo. Talvez amigos, afetos, encontros e domingos inteiros que poderiam ter sido dedicados à vida, mas foram consumidos por discussões que terminaram em portas batidas e cadeiras vazias.

Perdemos conversas. Perdemos abraços. Perdemos a delicadeza de escutar.

Mas não perdemos tudo.

Enquanto houver alguém disposto a estender a mão, haverá um começo.

Enquanto houver uma criança fazendo perguntas, haverá uma razão para procurar respostas.

Enquanto houver memória, haverá caminhos para compreender o passado.

E enquanto houver gente capaz de sonhar coletivamente, o futuro não será propriedade exclusiva de ninguém.

Hoje, passado e presente sentam-se à mesma mesa para conversar com o futuro.

O passado traz suas feridas. O presente chega atrasado, cansado, carregando contas, notícias e contradições. O futuro, ainda menino, observa tudo em silêncio.

Pede um copo d’água.

E pergunta:

— Vocês vão deixar alguma coisa boa para mim?

Ninguém responde imediatamente.

O café esfria.

A cerveja esquenta.

O silêncio pesa.

E talvez seja justamente essa a pergunta que precisamos responder todos os dias, não apenas nas eleições, mas no trabalho, nas escolas, nas ruas, nas relações e nas pequenas decisões que revelam quem somos quando ninguém está olhando.

Porque um país não se constrói apenas com grandes discursos. Constrói-se também com a honestidade de quem não aceita pequenas injustiças, com a coragem de quem reconhece seus erros e com a humanidade de quem se recusa a transformar diferenças em inimigos.

Não quero um país onde todos pensem como eu.

Quero um país onde ninguém precise ter medo de pensar, de perguntar, de existir.

Onde a democracia não seja apenas uma palavra bonita nas campanhas, mas uma prática cotidiana. Onde a liberdade caminhe de mãos dadas com a responsabilidade. Onde a esperança não seja mercadoria eleitoral, mas compromisso humano.

E se a caminhada for longa, que seja.

Se a noite for fria, acendamos alguma luz.

Se a voz falhar, que outros continuem a canção.

Se o medo chegar, que encontre a coragem sentada à mesa, tomando café com a consciência.

Somos milhões. Mas cada um de nós continua sendo alguém. Um rosto. Uma história. Uma ausência. Uma presença. Um sonho que ainda não encontrou seu lugar.

E é por isso que seguimos.

Não pela certeza de vencer todas as disputas, mas pela convicção de que nenhuma derrota precisa ser o fim da nossa capacidade de transformar.

Nunca vamos correr da luta.

Porque lutar também é educar, cuidar, acolher, construir, questionar e amar.

E se algum dia vencermos verdadeiramente, que a vitória não seja medida pela humilhação de quem perdeu, mas pela dignidade que todos puderem conquistar.

Agora, mais um café.

Quente. Forte. Racional.

Café com o meu país.

Depois, quem sabe, uma cerveja no copo americano, uma música antiga, alguns amigos, muitas histórias e aquela esperança teimosa que insiste em sobreviver até aos nossos piores dias.

Porque amanhã o sol nascerá outra vez.

E que nos encontre de pé.

De mãos dadas, pés no chão, olhos abertos e coração inteiro.

Ainda somos milhões.

E ainda temos um país para construir.


Fadario Foster
Café com o Meu País — Outubro de 2026

Tríade do Mal – Capítulo 3 — O Arquivo 314

A chuva havia cessado.

Mas a cidade continuava molhada.

Lina caminhava lentamente pela calçada, segurando o envelope pardo dentro da mochila como se carregasse uma prova de um crime. Desde a manhã, tentava convencer a si mesma de que tudo podia ser explicado.

Um erro no computador.

Uma coincidência.

Uma brincadeira de mau gosto.

Entretanto, havia uma pergunta que insistia em permanecer.

Como alguém poderia conhecer um professor morto havia nove anos?


Naquela noite, o apartamento parecia menor.

Ela espalhou sobre a mesa tudo o que havia reunido durante o dia.

A fotografia.

O bilhete.

As anotações.

Uma impressão da frase encontrada no computador.

No centro da mesa escreveu apenas uma palavra:

TRÍADE

Traçou um círculo ao redor.

Depois outro.

Em seguida começou a ligar os acontecimentos com linhas vermelhas, tentando encontrar um padrão.

Quarenta minutos depois, a folha parecia um labirinto.

Mas havia apenas uma conclusão possível.

Alguém estava conduzindo cada descoberta.

Nada acontecia por acaso.


Às 22h17, seu telefone tocou.

Número desconhecido.

Ela hesitou antes de atender.

— Alô?

Nenhuma resposta.

Apenas uma respiração lenta.

Regular.

Como se quem estivesse do outro lado esperasse que ela dissesse alguma coisa primeiro.

— Quem está falando?

Silêncio.

Então uma voz masculina, grave, quase sussurrando:

— Você abriu o arquivo.

A ligação caiu.

Lina permaneceu imóvel.

O celular vibrou novamente.

Dessa vez, uma mensagem.

“Não pesquise pela Tríade. Procure pelo Arquivo 314.”

Nenhum remetente.

Ela tentou responder.

A mensagem desapareceu da tela.

Como se nunca tivesse existido.


Na manhã seguinte, decidiu ir ao Arquivo Público Estadual.

O prédio ocupava um antigo palacete adaptado para armazenar documentos históricos.

O cheiro de papel envelhecido misturava-se ao de madeira úmida.

No balcão de atendimento, um senhor de cabelos completamente brancos levantou os olhos dos formulários.

— Posso ajudar?

— Estou procurando um documento antigo.

— Tem alguma referência?

— Arquivo trezentos e quatorze.

O homem congelou.

Por apenas um segundo.

Mas Lina percebeu.

Ele voltou a sorrir.

Um sorriso pequeno.

Forçado.

— Não existe nenhum arquivo com essa numeração.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ela agradeceu e se afastou.

Antes de alcançar a porta, ouviu uma voz baixa atrás de si.

— Espere.

Era uma funcionária.

Jovem.

Talvez trinta anos.

Usava crachá, mas o nome estava coberto por um adesivo.

Ela falou quase sem mover os lábios.

— Volte às cinco da tarde.

Quando todos forem embora.

E não entre pela porta principal.


Às 17h03, o prédio estava praticamente vazio.

Lina seguiu as instruções.

Entrou pelos fundos.

A funcionária a esperava perto do elevador de carga.

Sem dizer uma palavra, entregou-lhe uma pequena chave de bronze.

— Subsolo.

Corredor C.

Última porta.

Se encontrar o Arquivo 314…

Não leia tudo.

Ela quis perguntar por quê.

Mas a mulher já havia desaparecido entre as estantes.


O corredor C era frio.

As lâmpadas fluorescentes piscavam em intervalos irregulares.

As portas estavam identificadas por números metálicos.

301.

302.

303.

304.

A porta seguinte não tinha placa.

Apenas marcas de parafusos, como se alguém tivesse arrancado a identificação.

A chave girou com dificuldade.

A porta abriu lentamente.

O ar ali dentro era diferente.

Pesado.

Parado.

No centro da pequena sala havia apenas uma mesa de ferro.

Sobre ela, uma caixa de documentos.

Na tampa, escrito com tinta desbotada:

ARQUIVO 314

Lina retirou a tampa.

Dentro havia dezenas de pastas.

A primeira continha relatórios médicos.

A segunda, fotografias.

A terceira, gravações transcritas de entrevistas.

Todas tinham a mesma data.

17 de setembro de 1989.

Ela abriu o primeiro relatório.

Experimento interrompido às 03h18.

Os voluntários passaram a apresentar comportamento convergente.

Os níveis de narcisismo, manipulação e ausência de culpa aumentaram simultaneamente.

O fenômeno recebeu o nome provisório de Tríade do Mal.

Lina sentiu o coração acelerar.

Aquilo não era uma teoria.

Era um projeto.

Um projeto conduzido por cientistas.

Ela continuou lendo.

Até encontrar a última página.

No rodapé havia uma lista com os nomes da equipe de pesquisa.

O primeiro nome era desconhecido.

O segundo também.

O terceiro fez o ar desaparecer de seus pulmões.

Prof. Augusto Ferraz.

Seu orientador.

Oficialmente morto.

Mas registrado como pesquisador-chefe de um projeto encerrado apenas quatro anos antes de seu suposto falecimento.

Lina fechou a pasta lentamente.

Então percebeu algo que não estava ali quando entrou.

Na parede à sua frente, alguém havia escrito uma frase.

Com tinta preta ainda escorrendo.

“Quem conhece a Tríade deixa de estudá-la. Passa a fazer parte dela.”

A luz apagou.

No escuro, ouviu o som de uma cadeira sendo arrastada.

Ela não estava mais sozinha.

Tríade do Mal – Capítulo 2 — Ecos do Espelho

Na manhã seguinte, a cidade parecia exatamente a mesma.

Os ônibus seguiam lotados.

As pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas.

Os semáforos alternavam suas cores com a precisão indiferente de sempre.

Nada denunciava que, na noite anterior, Lina havia encontrado um símbolo capaz de perturbar tudo aquilo em que acreditava.

Ou talvez denunciasse.

Era ela quem já não enxergava a cidade da mesma forma.

Dormira menos de duas horas.

Sempre que fechava os olhos, via o triângulo desenhado na parede úmida do túnel. Não era apenas a imagem que retornava. Era a sensação de estar sendo observada. Como se aquele desenho tivesse encontrado um lugar dentro de sua memória e agora recusasse partir.

Ao chegar ao instituto onde trabalhava como pesquisadora em comportamento humano, deixou a mochila sobre a mesa e tentou retomar a rotina.

Ligou o computador.

A tela inicial apareceu normalmente.

Até que um pequeno aviso surgiu no canto inferior.

Erro de sincronização.

Ela ignorou.

Abriu sua pasta de pesquisas.

Centenas de arquivos.

Artigos.

Entrevistas.

Experimentos.

Mas uma nova pasta havia surgido.

Ela tinha certeza de que nunca a criara.

O nome era simples.

TRÍADE

Lina permaneceu imóvel.

O cursor do mouse pairava sobre o ícone.

Sentia aquele impulso irracional de não abrir.

Como se soubesse que, depois disso, alguma coisa deixaria de existir.

Respirou fundo.

Clicou.

A pasta continha apenas um documento.

Sem autor.

Sem data.

Sem origem.

Título:

“A natureza do poder não está em dominar pessoas. Está em fazer com que elas desejem ser dominadas.”

Ela franziu a testa.

O texto continuava.

“Todo ser humano possui três impulsos fundamentais. O desejo de ser admirado. O desejo de controlar. O desejo de não sentir culpa.”

“Separados, esses impulsos produzem indivíduos difíceis.”

“Unidos, produzem civilizações.”

Lina fechou o arquivo imediatamente.

Sentiu as mãos frias.

Chamou o técnico de informática.

— Você pode verificar uma coisa para mim?

O rapaz apareceu alguns minutos depois.

Abriu o computador.

Procurou a pasta.

Não encontrou nada.

— Qual pasta?

— A que estava aqui agora.

— Não existe nenhuma pasta nova.

Lina insistiu.

Mostrou onde havia clicado.

A área estava vazia.

O técnico sorriu com gentileza.

— Talvez tenha aberto um arquivo temporário.

Ela agradeceu, embora soubesse que não era isso.

Esperou que ele fosse embora.

Assim que ficou sozinha, a pasta reapareceu.

No mesmo lugar.

Como se jamais tivesse desaparecido.

Dessa vez havia dois documentos.

O segundo possuía apenas uma fotografia.

Três pessoas.

Vestidas formalmente.

Nenhuma sorria.

Atrás delas, na parede de uma sala de reuniões, havia um discreto objeto metálico em forma de triângulo.

No verso da fotografia, digitalizado em alta resolução, lia-se apenas:

“Eles descobriram antes de você.”

Lina ampliou a imagem.

Parou no rosto do homem à esquerda.

Seu coração acelerou.

Conhecia aquele rosto.

Era o professor Augusto Ferraz.

Seu orientador durante o mestrado.

Morto havia nove anos.

Ou, pelo menos, era isso que todos acreditavam.

Naquele instante, alguém bateu três vezes na porta da sala.

Três batidas secas.

Compassadas.

Ela olhou para o relógio.

11h11.

— Entre.

Nenhuma resposta.

Abriu a porta.

O corredor estava vazio.

No chão havia apenas um envelope pardo.

Sem remetente.

Dentro dele, uma única folha.

Sem assinatura.

Escrita à mão, com tinta preta:

“Não procure quem desenhou o símbolo. Procure quem o apagou.”

Antes que pudesse reagir, ouviu vozes vindas da sala ao lado.

Dois professores conversavam.

— Você conheceu o Ferraz?

— Conheci.

— Estranho… às vezes tenho a impressão de que ele nunca foi embora.

Lina voltou lentamente para sua mesa.

Quando olhou para a tela do computador mais uma vez, a pasta TRÍADE havia desaparecido.

Mas algo permanecia.

No monitor desligado, refletido no vidro escuro, ela viu seu próprio rosto.

E, por um breve instante, teve a nítida impressão de que o reflexo sorriu antes dela.

Tríade do Mal | Capítulo 1 — O Símbolo

A chuva começou pouco antes da meia-noite.

Pesada.

Constante.

As ruas pareciam dissolvidas sob o reflexo tremido dos postes antigos, e a cidade carregava aquele silêncio estranho que só existe quando algo ruim ainda não aconteceu — mas já está a caminho.

Lina percebeu o símbolo pela primeira vez às 00h43.

Estava desenhado na parede do túnel da estação desativada da Zona Norte.

Um triângulo preto.

Simples.

Três linhas imperfeitas feitas aparentemente com carvão ou tinta que escorrera lentamente pelo concreto úmido.

Mas havia algo errado nele.

O símbolo parecia… vivo.

Não se movia exatamente.

Mas produzia a sensação desconfortável de que estava observando quem passava.

Lina parou diante da parede.

O corredor estava vazio.

A água pingava do teto em intervalos regulares.

Ela ergueu a lanterna do celular.

No centro do triângulo havia uma frase escrita à mão:

“Todo homem possui três rostos. O último é o que destrói.”

Um arrepio percorreu sua nuca.

Ela fotografou o símbolo.

A tela do celular falhou imediatamente.

Linhas estáticas atravessaram a imagem.

Depois apagou.

— Ótimo… perfeito…

Sua voz ecoou pelo túnel vazio.

Ela tentou ligar o aparelho novamente.

Nada.

Então ouviu passos.

Lentos.

Atrás dela.

Lina virou rápido.

O corredor continuava vazio.

Mas o som não parou.

Passos úmidos.

Arrastados.

Próximos demais.

Seu coração acelerou.

— Tem alguém aí?

Silêncio.

Apenas a chuva distante.

Ela respirou fundo, tentando parecer racional.

Provavelmente um morador de rua.

Talvez algum usuário escondido nos trilhos.

Talvez apenas o eco.

Ela começou a caminhar de volta.

Os passos acompanharam.

Exatamente no mesmo ritmo.

Quando ela acelerava…

eles aceleravam.

Quando diminuía…

eles diminuíam.

Lina não olhou para trás dessa vez.

Continuou andando mais rápido.

O túnel parecia maior agora.

Longo demais.

Como se a saída tivesse se afastado.

As luzes antigas no teto começaram a piscar.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Então apagaram completamente.

Escuridão.

O ar ficou frio instantaneamente.

Frio demais.

Lina parou de respirar por um segundo.

Na escuridão absoluta, ouviu alguém sussurrar muito perto do seu ouvido:

— Você já começou a mudar.

Ela girou violentamente.

Nada.

Acendeu a lanterna do celular no exato momento em que a bateria voltou.

A luz revelou o corredor vazio.

Mas não completamente vazio.

Na parede oposta havia outro triângulo.

Maior.

Muito maior.

Recém-desenhado.

A tinta ainda escorria lentamente pelo concreto.

Como sangue diluído em água.

E no centro do símbolo havia três palavras…

Lina sentiu o estômago afundar.

Porque abaixo das palavras existiam três nomes escritos.

O primeiro estava borrado.

O segundo ela não conhecia.

Mas o terceiro era o dela.

E naquele instante, as luzes do túnel voltaram.

No reflexo da parede molhada, Lina percebeu algo impossível:

Sua sombra não repetiu o movimento dela.

Sua sombra continuou parada.

Observando.

O Triângulo Vivo – Pequenos Recomeços

O Triângulo Vivo — lembranças, mudanças e liderança — ganha forma concreta em pequenos recomeços. Não se trata de grandes viradas ou decisões dramáticas, mas da capacidade diária de se reposicionar: ressignificar uma lembrança sem ficar preso a ela, aceitar uma mudança sem resistência paralisante e exercer liderança sobre si mesmo quando o cenário é incerto.

Nesse contexto, cada dia oferece micro escolhas que mantêm o triângulo em equilíbrio. As lembranças deixam de ser âncoras e passam a ser referências; as mudanças deixam de ser ameaças e se tornam movimento; e a liderança deixa de ser um cargo e se transforma em postura. O pequeno recomeço é, portanto, um ato silencioso de autocontrole e consciência — quase imperceptível externamente, mas estrutural internamente.

Quem domina esse ciclo não espera o momento ideal: cria constância. E, na prática, é essa constância — feita de recomeços discretos — que sustenta trajetórias sólidas, tanto na vida pessoal quanto na liderança profissional.

São pequenos começos que se referem a valorizar inícios simples, persistir em pequenas mudanças e ter esperança na sementeira silenciosa. Essa perspectiva incentiva a não desprezar começos humildes, pois eles sustentam grandes transformações.

Novamente, não é sobre grandes viradas — é sobre decisões silenciosas. É a escolha de começar mesmo quando tudo parece pequeno demais para importar.

Esse conceito nos confronta com uma verdade incômoda: tendemos a desprezar aquilo que ainda não impressiona. Mas é justamente no início discreto que reside a potência da transformação.

Não podemos desprezar o começo. Todo processo significativo nasce sem aplausos. O início é frágil, imperfeito e, muitas vezes, invisível. Ainda assim, ele carrega direção. Desprezar o começo é interromper o próprio futuro.

A força da perseverança é silenciosa. Existe um tipo de crescimento que não faz barulho — como a semente que rompe a terra no escuro. A constância, mais do que a intensidade, sustenta aquilo que realmente permanece.

Pequenos hábitos nos conduzem a grandes destinos. A mudança não acontece no evento, mas no ritmo. São os gestos repetidos, quase imperceptíveis, que redesenham trajetórias. O extraordinário é, quase sempre, a soma disciplinada do simples.

A esperança está nos ciclos. Recomeçar não é voltar atrás — é avançar com consciência. Novas fases surgem, mesmo após perdas, rupturas ou cansaço. Cada ciclo traz consigo a oportunidade de reconstruir com mais maturidade.

No fundo, essa perspectiva une fé e ação: acreditar que o pequeno importa — e agir respirando esta verdade todos os dias.

Porque grandes histórias não começam grandes. Elas começam.

É no equilíbrio do Triângulo Vivo que esse começo ganha muita força: o peso das lembranças se torna sabedoria, as mudanças deixam de assustar e passam a impulsionar, e a liderança renasce de dentro como decisão diária de continuar. Quando esses três elementos se alinham, até o menor recomeço deixa de ser insignificante e passa a ser estratégico — um ponto de partida silencioso, porém carregado de direção, propósito e transformação.

Triângulo Vivo

Toda liderança verdadeira existe dentro de um campo de forças invisíveis.
Não é uma linha.
Não é uma hierarquia.
É um triângulo.

Três vértices sustentam qualquer processo humano de transformação:

Lembranças.
Mudanças.
Liderança.

Eles não competem entre si.
Eles se equilibram.
Quando um cede, os outros colapsam.

Esse é o Triângulo Vivo.

Este é o meu primeiro passo na minha mais nova empreitada: escrever um livro sobre liderença e outros temas relacionados ao desevolvimento humano, a partir dos fundamentos da gestão e de conhecimentos, habilidades e atitudes. Numa era dominada por algorítimos, precisamos pensar, sentir e refletir, como os nossos valores, comportamentos e emoções podem nos ajudar a encontrar novos caminhos para alcançar os nossos sonhos, planos e objetivos.

Hiatos

Hiatos de silêncios e portas batendo orquestram a sinfonia do luto naquela noite de meio de semana. Ela partiu e nunca mais voltou denunciava o rádio.  A essência ainda era de vida por mais que o cheiro fosse de morte. Não tem nada doce na partida, é só ruptura mesmo, abrupta, bruta, sem prévia.  Dói demais quando um – e mil – amor se desfaz assim. Despedaço de pés descalços cansados, vagando sem rumo até encontrar um prumo do corpo descansar.

Lá no profundo e frio som de acordes cinzas a dor já nem abala tanto, pois ela acolhe o pranto daqueles que já não querem mais. No rádio, outra pedrada sobre aquele adeus…

… a Deus sobe as nossas preces mais pesadas e apressadas para chegar antes e preparar bom lugar. A gente tenta dissimular, fingir, esconder até que sucumbe a dor de continuar, sem querem, sem poder, sem ter forças, sem encontrar sentido, sentidos ou adjetivos que justifiquem continuar sem querer…

Mas precisamos continuar. Nesse estágio do luto, não é avançar — é permanecer.

É aceitar que o corpo ainda anda enquanto a alma se senta no chão, cansada, tentando entender o impacto. Continuar é respirar mesmo quando o ar pesa, é permitir que o silêncio cumpra seu papel sem exigir respostas imediatas.

Segue-se quando se entende que a ruptura não pede superação apressada, mas integração. A ausência não se fecha; ela se reorganiza dentro de nós. O amor que não tem mais onde pousar vira memória viva, às vezes dor, às vezes abrigo. Não há doçura nisso, apenas verdade.

Continua-se aos poucos:

— quando o pranto deixa de ser urgência e vira companhia;

— quando o rádio ainda dói, mas já não paralisa;

— quando o corpo encontra um prumo mínimo para descansar, mesmo torto.

E, sobretudo, continua-se porque amar não foi erro.

O que se despedaçou não foi o sentido, foi a forma.

A essência permanece — transformada, silenciosa, mais profunda.

Não se trata de “seguir em frente”, mas de seguir com.

Com a falta.

Com o eco.

Com o que ficou.

E isso, embora pesado, já é um modo de continuar.

Colheita

TERRA FÉRTIL

Andei refletindo sobre o significado do nome “Al Janiah”… Já sei que vem do árabe, d’alguma palavra ou expressão que não sei escrever, mas tudo bem, pois posso sentir os seus diferentes significados. É claro que a primeira coisa que me vem em mente é que se trata do meu querido restaurante e espaço cultural Al Janiah, em São Paulo, o qual carrega forte simbolismo político e cultural, que assim consegue de forma muito respeitosa e democrática representar os mais diversos povos, propósitos, causas, públicos e tudo isso aliado a sua luta pela causa palestina – que ouso a dizer que já é universal: clamar por respeito às diferenças e pelo direito a uma vida em paz é legítimo e necessário, em tempos que o mundo, parece-me, prefere normalizar abusos, ataques e absurdos.

Al Janiah é o acolhimento que eu e meus irmãos pretos tivemos após um dos momentos mais difíceis da história recente deste mundo doente, a pandemia, momento que em fomos (a)colhidos e apresentados como frutos da nossa verdade na missão de espalhar a nossa arte como semente por meio da música, a nossa verdade por meio do amor, de somar as nossas forças e com rebeldia, dizer não e se opor a todo e qualquer tipo de preconceito, racismo e violência, e produzir cada vez mais frutos e sementes, pílulas de entusiasmo, fé, paz, alegria, união, respeito, compartilhando os nossos sonhos, os nossos talentos para o bem dos nossos iguais – e dos diferentes. 

Al Janiah é derivado da raiz árabe associada à ideia de colher, produzir, frutificar que tem muita conexão com o que fazemos cada vez que subimos naquele palco gigante e empoderador com a bandeira palestina a fundo. É súbita transgressão e culpa por tamanhos delitos e erros de ser e pensar diferente para o bem do próximo, de acolher a dor de um igual, de abraçar, respeitar e amar as diferenças, sempre. É religião, religação onde estamos juntos e misturados para fazer o que é simples e bom, onde o coletivo é transformação e o individual é soma.

No Al Janiah todos somos ativistas conectados às causas nobres e legítimas, da palestina livre do rio ao mar aos direitos humanos, urbanos, caninos, culturais, boêmios, artísticos, da mulher, dos vulneráveis e, sobretudo, os reais e leias às coisas boas e certas do mundo, sempre do lado certo da história, respeitando as memórias de luta e dor, como uma terra fértil, que já rachou no sol, mas recebe chuvas e sementes, donde brotam melancias para partilhar a mesa, onde tem rodas de conversas e sempre se encontra o entendimento, que geram ações para bem comum entre todos, de onde se colhe cultura, resistência, arte e história. Para todos. Para todas. Para todes.

Al Janiah reserva e preserva um lugar ao sol ou a luz neon para pessoas individualmente e para povos coletivamente, que foram considerados ou são considerados culpados ou excluídos injustamente – como ocorre historicamente com o povo palestino. Ambiguidade quase poética esta: ao mesmo tempo quem colhe é de quem é a acusação. É uma metáfora viva: aquela que colhe frutos, expressa de fertilidade, vida, resistência e continuidade. É um ambiente em que ninguém teme a liberdade. E todos celebram democraticamente a partilha de momentos e futuros melhores. 

Nesse cruzamento de sentidos, nasce o espírito desse espaço: uma terra fértil de cultura, arte e pensamento livre. Um abrigo para vozes silenciadas, um palco para histórias invisíveis, mas incríveis como a minha e de meus irmãos de cor – e semelhante e respeitosamente, de todos as outras de todas as cores também – , pois a nossa luta contra o racismo e a nossa dedicação ao amor é sempre um convite com um brinde à luta e à beleza de existir com dignidade, igualdade e equidade. E isso não pode ter idade na linha histórica do mundo e sim espaço, lugar e essência, como o Al Janiah.

Al Janiah é Palestina. Al Janiah é Bixiga, Bela Vista, Sampa, SP e é o Brasil sem golpe. É América Latina. É mulher, corpos respeitados, copos suados, é arte, é presença. Aqui, cada prato é memória. Cada silêncio é paz. Cada música é manifesto. Cada olhar, cada beijo, cada abraço, cada poesia, são armas. Cada palavra é semente. Cada festa, filosofia – de vida. Cada lágrima das dores e das alegrias dessas lutas nesse mundo regam essa terra fértil onde cada encontro, é uma colheita.

Sergio França
sergiofranca.com
@sergiofrancaz

Multiartista independente, escritor, compositor, fotógrafo, professor, músico, cantor e pianista a frente da A Banda Preta (@abandapreta), projeto iniciado no Al Janiah no pós pandemia, com o projeto Ballares Band (@ballaresband), em celebração a música negra do Brasil do mundo.

O Cordel de Maria São Pedro

Lá no alto do morrão,
Ao fim da rua estreita,
Da Bahia de axé quente
Vive a preta mais valente,
Mora a dona do cordão.
Com seus mais de oitenta e tantos,
Vive arrumando quebrantos,
Alimentando confusão.

Dona Maria, preta e feita,
Com a vassoura e com fé,
Sobe em laje, varre folhas
Cantando e louvando em paz.
— “Mãe, desce daí, mulher!”
Mas ela não volta atrás.
Quer folhas secas e chuchu
Só pra acabar com a paz!

Filha chora, neto reza:
— “Vou filmar pro mundo ver!”
Ela não é preguiçosa,
Forte, ligeira e de fé.
Foi de escada em escada,
Na incansável jornada,
Subindo predestinada
Pra lavar o chão do céu.

Agora ri da comoção
Que deixou no coração
Da família em oração.
Pra Maria de São Pedro
Só ficar aqui no chão,
De onde não tire o pé —
Firme e forte como a fé.
Mais teimosa que o trovão,

Voa mais que avião!
Com seus anos bem contados
E os passos acelerados,
Pra domingo ir na igreja
Com vestido e véu rendado,
Achar tudo engraçado
E cantar hino afinado.
Se eu cair, Deus me levanta!”

E lá vai ela louvando
Uma ladainha santa
E gente se apavorando,
Filha liga pra dar bronca,
Neto liga pra emergência,
E todos numa só crença:
Para logo com essa encrenca!
Mas ela não tá nem aí!

Maria em cima da laje,
Faz o mundo ser o chão:
O joelho nem estala,
A coluna ainda suporta
E Maria diz sorrindo:
Subo em nome de Jesus
E daqui não saio,
Aqui eu não caio, não!

Ei, Maria, ouça aqui
Eu também vou subir aí
E não é por desagravo,
Nem falo por arrogado,
Mas fico bem preocupado.
Nosso Deus é milagroso,
Mas é muito perigoso
Ficar tão perto do céu!

Varreu quintal, varreu rua,
Agora fica na sua,
Ou vamos no delegado
Dar parte da tua conduta:
Tua luta é muito nobre,
Tua história é tão bonita,
Então, sai dessa berlinda
E só fica aqui no chão,

Desce na paz, não sobe mais
Ora, vigia e descansa
As folhas o vento leva,
O chuchu compra na feira.
A sua vida linda derradeira
Essa vida não se leva,
Esse amor não se compra!
Então, Maria, não apronta!

Beijo

– Ela não vai lembrar.

– Ela não vai esquecer.

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