O necessário e um pouco mais.

Categoria: Reflexões Page 2 of 3

Insídia

O que é a espera para quem espera por quem não vem? O que nos tornamos quando esperamos por coisas que não vão acontecer? Alguém já sabe o que há de ser da espera, tanta, e desse tempo que passa sem respeitar o que sentimos. E qual seria o sentido dessas tantas esperas que cultivamos nesta – ou numa outra – vida? Esperamos pelo amor, nunca pela dor da falta. Esperamos pelos gritos de gol, jamais pelas vaias da derrota. Esperamos um bater na porta de inesperada visita boa de fim de tarde, com café e boa conversa, mas nunca estaremos preparados para quem toca a campanhia e sai correndo…

Esperamos por outra(s) vida(s) e nem sempre percebemos que os cinco minutos seguintes já não nos pertence mais. Esperamos uma música de rádio nos trazer lembranças de quem está distante nos pegar de supresa, mas jamais esperamos pela grata surpresa desse alguém aparecer no portão ou mandar um cartão postal… Esperamos. Esperamos pela mensagem na garrafa que cruza oceanos, nem sempre por um abraço. Esperamos por perdão, pelo trem, por tardes de sol e chuva em dias de casamentos. Esperamos por trocas, esse escambo de vontades e emoções, no entanto nunca sabemos negociar com o tempo. O tempo que não espera a nossa espera; passa. Passou. Passará… Esperamos a vida inteira por pessoas, coisas, situações, histórias… que não vêm, nunca virão.

E uma certa saudade encosta e nos faz companhia… e o tempo, ri.

Ressentido

Perdemos – e nos perdemos buscando encontrar perguntas que justifiquem as respostas em que acreditamos. Não temos pra onde ir e precisamos seguir mesmo assim desbravando emoções, pisando em ovos e corações. Nada passa mas passa a fazer sentido: ter sentido. Vivemos. Sentimos. Perdemos.

Perseguimos desejos que não fomos ensinados a lidar, sonhamos sonhos que nem sempre temos a capacidade de realizar e buscamos o amor sem nem contemplar o alvorecer.
O que vai ser quando o tempo passar?
Onde vamos estar quando invernos e segundos trouxerem neve para a nossa cabeça?

Deixa.
Deixa como está, mas a gente precisa parar.
Existe um iato tênue entre um instante e mais uma foto na estante, sobre o piano ou em mais um documento – novo, de novo. A gente meio que se acostumou a… perder.
Perder documento, acontece; perder um amor pra vida, também.
Sem documento e sem lenço.

Perdemos o trem, o plumo e os planos. Seguimos em frente percebendo a cidade envelhecer e a vida trazendo outros rumos.
Segunda via, lenços de papel, lágrimas recicláveis, esquinas, placas, olhos, terminais, festas, frestas, sinais… A gente só precisa parar e observar…

Gavetas

Com ninguém. Coração fica na mão: batata quente, ouriço que secou na areia longe das ondas, barbante segurando a força do balão de ganhar céus, destino errante nas rédeas do peão no bordel, belezas ocultas sob véus, uma puta falta de vontade de sonhar, de voltar e crer no fim do arco-íris [e na verdade do brilho da iris]. Enfim, fica em vão, de peito vazio. Fica no chão entre cacos e saltos [altos] ao som de fim de festa – copos quebrados e pés descalços. Fica no vão entre as coisas que esquecemos e as que jamais esqueceremos – como lugares onde nunca mais voltamos, mas sabemos que [para] sempre estarão lá… Fica na vontade de revirar gavetas, libertar a caneta, o verbo, o credo, tretas e ter n’alguma coisa menos triste o destino em riste te esperando pra tentar – porque a vida é isso: todos os dias tentamos. Somos culpados, o tempo aponta o lápis para escrever outras linhas e na outra ponta não tem borracha. Porque essa rinha tinha que acabar. Agora, fica esse tal coração e uma lista de coisas para encaixotar.

Sentido

O sentido é sentir. Da vida, do caminho, da canção. Não tem mapa – só um tapa na maquiagem para deixar de bobagem e lembrar que o caminho não é só a dor e o suor de subir, mas é tambem o refresco e o descanso do chegar. O sentido é a vida – e da vida viver e merecer todos os dias cada um dos sorrisos e flores do caminho – e nunca estar só, nem no castigo, nem no estádio, nem no pó. O sentido é o caminho e o caminho está no caminhar, em cada passo, em cada laço (des)feito, na estação que ficou e no trem que seguiu. O sentido é a canção – o hiato escondido entre notas fluindo no rio beijando o mar. O sentido é amar, é ser o que se pode ser e fazer o que (não) pode – e eclode sem jeito no peito desatinado e rouco de gritar por socorro, como quem sobe o morro [da vida] buscando por um caminho cantando uma canção… Pára à sombra de uma árvore.
Sente.
Respira.
Observa.
Descansa.
Pensa num sentido para tudo o que tem sentido.
Canta.
Ama.
Rí.

Dualidades

… uma manhã cinzenta de chuva e fria de sombras faz a gente pensar que nem todos os dias podem ser de sol, assim como nem todas as pessoas [ou coisas] podem ser boas. Essa é uma condição de (des)equilíbrio necessária e da natureza e suas infinitas convenções. A única coisa capaz de transformar nossa história, é ouvir e aprender o que é bom, e logo em seguida, praticar. Faça chuva; faça sol.

Brilho

… luz. Somos conduzidos por luz. Na luz está o nosso norte, a nossa sorte, a nossa vigilância para as trevas, o nosso farol para nós guiar para o bem. As sombras emolduram os caminhos que precisamos seguir ao encontro da luz, marcam um limite entre o bem e o mal. Tem muita gente que emana luz e ninguém vê, porque se acostumou a andar por caminhos onde nem o sol, nem a lua, nem as lâmpadas – elétricas suspensas pelo infinito – alcançam… E tem aqueles que são cheios de luz – de Deus, de paz, de fé e verdade – e esses sim seguem em frente, iluminando caminhos, túneis, ninhos, lares… Somos feitos de luz e precisamos seguir para onde a luz está… Como gota d’água que encontra um rio, como um rio que deságua no mar, como mar que bejia o sol e acalenta a lua, refletindo estrelas e histórias… de luz.

Perecível

…final feliz se tornou um produto, perecível, comum, médio e sem muitas variações de tamanho, cor, sabor…
… felicidade sem fim – sem manual de instruções, simples, direta e certa – é o que todos buscam… É o que todos querem…

Lamento

Inconsequentemente, procurou pela cidade algo que naquele momento só podia estar em seu coração. Gritou e esperou por uma resposta. Era só mais um dia de chuva e vento, chato, lento, de lamento e silêncios meio a buzinas e retinas cheias de luzes de faróis. Uma resposta e só – acabaria o lamento, tormento para a sua vaidade numa cidade sem idade, de poucos amigos, poucas verdades e um gosto de paz. Um lamento, uma resposta; era essa a sua aposta… E só.

Belezas

… as coisas mais bonitas da vida surgem de forma simples e inesperadas, a gente não compra, nem usa. A gente ganha, vive, compartilha, emoldura no tempo, no momento em que percebemos que a vida é isso que vivemos quando não pensamos em felicidade – porque ela se apresenta pra gente cotidianamente como um prato de arroz e feijão, uma cerveja gelada, um lago para caminhar em volta, a volta de uma viagem, uma paisagem, um ingresso para o show da banda preferida, a lida com vitória, as histórias de amores, sucessos, saudades, amizades, verdades… De repente, terminam, como bolha de sabão leve e bela que ganha alturas e até estourar; duram o tempo suficiente e necessário para serem assim, simples e bonitas. Porque a vida foi feita para ser assim.

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