Seja o que o adeus quiser
A pessoa perguntou se ainda havia café. Havia. Pouco, no fundo da garrafa, provavelmente frio. Eu disse que podia fazer outro. Ela olhou para o relógio e respondeu que não precisava.
Fiquei com a mão na tampa.
Há algum tempo, nossas conversas terminavam assim: eu oferecendo mais alguma coisa, ela dizendo que não precisava. Mais café, uma carona, um domingo juntos. Custei a perceber porque ninguém tinha levantado a voz. A gente ainda perguntava sobre o trabalho, comentava o preço das coisas, mandava uma notícia encontrada no celular. Por fora, havia assunto.
Ela recolheu a bolsa do chão. Conferiu os bolsos, procurou a chave. Eu acompanhava aqueles movimentos com uma atenção que já não dedicava às coisas boas. Conhecia o jeito de prender o cabelo, a pequena impaciência quando alguma coisa sumia dentro da bolsa. Pensei em dizer isso. Pareceu tarde e um pouco injusto lembrar que eu reparava nela justamente quando estava indo embora.
— Depois a gente conversa.
Concordei. Já tínhamos usado aquela frase outras vezes. Ela nos permitia terminar uma tarde sem precisar terminar mais nada.
Na porta, houve um abraço. Demorou o suficiente para me confundir. Quase pedi que ficasse, mas senti a chave entre os dedos dela, encostada nas minhas costas.
Abri a porta.
Depois que o elevador desceu, voltei para a cozinha. A xícara estava pela metade. Havia uma marca de café na borda e uma colher pequena sobre a mesa. Fiquei olhando, como se fosse necessário decidir imediatamente o destino daquelas coisas.
Peguei o celular.
Escrevi que ainda dava tempo de conversar. Apaguei. Escrevi que tinha sido bom vê-la. Aquilo soava como uma educação triste demais para nós dois. Apaguei também.
Deixei o aparelho ao lado da garrafa e bebi o resto do café. Estava frio, como eu imaginava.
Não senti alívio. Também não veio aquela clareza bonita que às vezes aparece nos filmes, quando alguém vai embora e o outro finalmente entende a própria vida. Eu só estava numa cozinha, num sábado, sem saber o que fazer com o restante da tarde.
Lavei as xícaras. Guardei o pão. Passei um pano na mesa.
O celular acendeu uma vez. Era a operadora oferecendo mais internet.
Quase ri.
Mais tarde, abri a janela. Alguém discutia uma vaga na rua, um cachorro latia, a televisão do vizinho anunciava alguma coisa imperdível. Eu precisava comprar comida. Precisava trocar a lâmpada do corredor. Havia uma vida inteira de pequenas providências esperando, indiferente à minha vontade de ficar parado.
Antes de sair, olhei o celular mais uma vez.
Seja o que o adeus quiser, pensei.
Peguei a chave e fui comprar pão.
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