Hiatos de silêncios e portas batendo orquestram a sinfonia do luto naquela noite de meio de semana. Ela partiu e nunca mais voltou denunciava o rádio. A essência ainda era de vida por mais que o cheiro fosse de morte. Não tem nada doce na partida, é só ruptura mesmo, abrupta, bruta, sem prévia. Dói demais quando um – e mil – amor se desfaz assim. Despedaço de pés descalços cansados, vagando sem rumo até encontrar um prumo do corpo descansar.
Lá no profundo e frio som de acordes cinzas a dor já nem abala tanto, pois ela acolhe o pranto daqueles que já não querem mais. No rádio, outra pedrada sobre aquele adeus…
… a Deus sobe as nossas preces mais pesadas e apressadas para chegar antes e preparar bom lugar. A gente tenta dissimular, fingir, esconder até que sucumbe a dor de continuar, sem querem, sem poder, sem ter forças, sem encontrar sentido, sentidos ou adjetivos que justifiquem continuar sem querer…
Mas precisamos continuar. Nesse estágio do luto, não é avançar — é permanecer.
É aceitar que o corpo ainda anda enquanto a alma se senta no chão, cansada, tentando entender o impacto. Continuar é respirar mesmo quando o ar pesa, é permitir que o silêncio cumpra seu papel sem exigir respostas imediatas.
Segue-se quando se entende que a ruptura não pede superação apressada, mas integração. A ausência não se fecha; ela se reorganiza dentro de nós. O amor que não tem mais onde pousar vira memória viva, às vezes dor, às vezes abrigo. Não há doçura nisso, apenas verdade.
Continua-se aos poucos:
— quando o pranto deixa de ser urgência e vira companhia;
— quando o rádio ainda dói, mas já não paralisa;
— quando o corpo encontra um prumo mínimo para descansar, mesmo torto.
E, sobretudo, continua-se porque amar não foi erro.
O que se despedaçou não foi o sentido, foi a forma.
A essência permanece — transformada, silenciosa, mais profunda.
Não se trata de “seguir em frente”, mas de seguir com.
Com a falta.
Com o eco.
Com o que ficou.
E isso, embora pesado, já é um modo de continuar.
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