O necessário e um pouco mais.

Categoria: Contos Page 4 of 9

Segundos

Noite longa.
Não acertam os ponteiros. Sem roteiro, muita vontade; pouca coragem. O ponteiro dos segundos bate no pensamento e rebate no coração. Hoje, não. Já era tempo pra falar sobre o que não se queria falar, mas hoje, não. Só hoje. Não dá. Noite fria, rua vazia, azia de pensar em terminar o dia assim: fim. Enfim, já se sabia o que [não] ia ser. Agora é esquecer ou lembrar, tanto faz. Os segundos passam e não dão paz: batem, rebatem, gritam… Covardia.
Saudade.

Lama

Tinha uma prisão sem muros dentro de sí. Cansou do escuro da indecisão. Decidiu ir – porque ir embora foi a melhor decisão que tomou naquele capítulo. Virou a página. Deu um ponto final. Deu um ponto final nas coisas que lhe faziam mal. Era final de tarde de fim de semana. Sem grana, deixou o drama na lama, virou a esquina e sumiu.

Possibilidades

Gostava disso: partir sem ter planos. Sabia que podia voltar quando quisesse. Só não sabia o que encontraria pelos caminhos… E disso gostava ainda mais.

Feira

Sábado, sol, feira – quanta asneira fica no cache depois da sexta-feira: gosto de guarda-chuva na boca, serpentes na mente, flashbacks de gente e sons em tons abstratos em contato com o veneno que escorre para o coração. Envelhecer e ter boas histórias para lembrar e contar é um dom. A baladeira e a rezadeira nunca vão se encontrar para costurar uma colcha de retalhos e fotografias. O feirante grita e mexe com as moças bonitas enquanto o carteiro passa cheio de postais e boletos. O taxista faz fofoca e espera por clientes. Um velho lava o quintal; outro, alimenta os pombos. Quantos tombos até chegar alí só pra esperar pela morte – que sorte. Sábado, um dia qualquer e uma mulher decidi trair, um jovem decidi fugir e um cão reencontra o lar… Dia de feira, ontem foi sexta-feira e daqui a pouco já é carnaval.Tem resto de gente que a noite não tragou, latas no bolso do terno com traças, isqueiros e corpos que não funcionam… Passa mais um ônibus, um carroceiro, um cadeirante e um errante em busca de um táxi que o leve de volta para algum lugar… Sábado, não faz mal se ainda não encontrou alguém pra amar, dividir o tédio e escrever boas histórias… Não faz mal. Não-faz-mal.

Pecados

… noites. Um açoite para as almas desavisadas que vagam pelos becos de corações vazios e escorrem pelo meio fio até desaparecerem lá longe – onde não se esconde -, surgindo e sumindo, como facho de luz dos carros dobrando a esquina. Que sina essa de quem sempre está em clima de festa, que deixa entrar pelas frestas a luz que corta as sombras da sua solidão. Que vida é essa de quem expressa andar de joelhos em busca de perdão por pecados que não cometeu – e que não são seus. A noite está cheia de pecados e isso é uma ilusão, como o perfume de copos quebrados curtidos de gin, corpos suados sobre lençóis molhados, corações perdidos em becos sem fim, almas despedaçadas varridas para o meio fio… Silêncios…

Resignado, buscou encontrar um (re) significado para a vida – e pára, amor! Já chega! O destino trouxe de bandeja o que o tempo demorou demais por fazer. Agora, precisa crer no que lhe parece impossível: viver só, bater o pó da auto-estima, (re)encontrar a rima que combina com o compasso do seu coração, (re)conhecer a mina e seus laços vermelhos – de batom no espelho borrado de declaração de amor -, (re)definir o valor de cada segundo nesse mundo imundo inundado de flores, (re)combinar as cores e os atos, (re)equilibrar os pratos e seguir caminhando nessa corda bamba que todo amador desafia cruzar… Recolher as peças de Lego, inflar [um pouco] o ego, tirar as chuteiras do prego e recomeçar. O mundo agora é o seu lar. Ele vai encontrar uma dor maior que essa depois, talvez, só pra esquecer… Só pra esquecer… Só.

Impossível

Resignado, buscou encontrar um (re) significado para a vida – e pára, amor! Já chega! O destino trouxe de bandeja o que o tempo demorou demais por fazer. Agora, precisa crer no que lhe parece impossível: viver só, bater o pó da auto-estima, (re)encontrar a rima que combina com o compasso do seu coração, (re)conhecer a mina e seus laços vermelhos – de batom no espelho borrado de declaração de amor -, (re)definir o valor de cada segundo nesse mundo imundo inundado de flores, (re)combinar as cores e os atos, (re)equilibrar os pratos e seguir caminhando nessa corda bamba que todo amador desafia cruzar… Recolher as peças de Lego, inflar [um pouco] o ego, tirar as chuteiras do prego e recomeçar. O mundo agora é o seu lar. Ele vai encontrar uma dor maior que essa depois, talvez, só pra esquecer… Só pra esquecer… Só.

Tempestade

Enfim, chegou ao fim, mas ainda sentia o perfume e tinha o costume de acordar e admirar o sol nascer naquele olhar. Guardou os sonhos e de vez em quando sonhava os planos, Fim. Chegou o fim. Sabia que não tinha volta, mas se esqueceu a esperar, como barco ancorado na areia que nunca navegou por outro mar. Acabou. Sabia que era esse seu cruel desterro, como farol trancado numa ilha que nunca mais brilhou… Nunca mais.

Cura

A questão era e sempre foi uma só: ir. Foi, mas não deixou partir. Ousou dizer adeus. Deixou um pouco de sí e levou pedaços quando desfez os laços que criou e deixou flâmular na brisa mais tenra. Foi. Estava cansado de não ter razão de estar. Queria detestar viver assim, mas não conseguiu, pois seria como remar num rio sem margens – e isso já era demais para a sua linhagem revestida de bravura. O tempo cura. Foi e nem olhou para o mapa, nem lembrou do tapa, só deixou o rastro da capa no chão, o pulso do coração na mão, a lembrança do caminho que nunca cruzou, do ninho que não o acolheu. Foi tudo ilusão, então? Viagem sem destino, (des)aventuras, luzes e mente no vermelho. Destino atroz, um trem veloz vai chegar para estancar seus pensamentos, laços desfeitos… Foi.

Pipoca

São ciclos. Começam onde terminam – e quando se vê, recomeçam. Talvez, no meio d’algum desses você esteja pensando nas vezes que seguiu em frente por estradas que não lhe pertenciam – e ficou mais forte; ou das vezes que desistiu e partiu mesmo sem rumo, sem plumo, planando como pluma ao sabor do vento, lento, brisa leve, breve como a vida de uma pipoca, como sopro de um bebê antes do primeiro choro, como assopro sobre a chama das velas do bolo de aniversário, como assobio pra moça faceira atravessando a rua de saia e cabelo samambaia, como fôlego de amantes sob a lua, como suspiro derradeiro no leito, como silêncio de um coração no peito… Partiu. Andou por caminhos em desalinho, como equilibrista na corda meio bamba, como quem pára no tempo [respira] e declina diante das (re)possibilidades de ser feliz e fazer o que sempre quis… Há quem alimenta pombos na praça e faz pirraça com o tempo – porque a vida parece pipoca: ploc!

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