O necessário e um pouco mais.

Categoria: Contos Page 3 of 9

Destino

… pra onde iremos nós? Onde estão os silêncios de nossos pensamentos? O vácuo onde gritam as palavras que não dizemos? O breu de nossas mais profundas amarguras? A sombra de nossos piores medos? Os abraços trancados em fotos? As verdades que apostamos na loto? Para onde irão os nossos devaneios? Para as noites de tardes sem manhãs? Para onde os pecados se escondem em maçãs? Para onde os espelhos quebram? Onde os joelhos celebram penitências vãs? Para às cicatrizes onde as dores não cessam? Pra onde aponta o nosso olhar? Onde está a nossa luz? De onde vem essa crença bendita em resistir e insistir em buscar por caminhos?… Se perdeu na descrença rotineira de tardes de dias de semana; se encontrou nas dúvidas mais aburdas e tardias para uma vida vazia, vadia… Simplesmente seguiu. Um destino; uma alternativa: tentar.

Desperto

… procuramos e não encontramos. Buscamos e não alcançamos. Tentamos; não conseguimos. Não depende do tempo, nem do vento. Dados lançados rolando a ladeira… Talvez, nesta – ou numa outra desventura qualquer – passaremos por degraus e veredas por onde vendavais traçaram novos caminhos, mil fúrias e lamúrias assolaram e dilaceraram possibilidades – porque as cidades aindam dormiam em cinzas no mais lindo alvorecer. Dia novo, novos rumos para qualquer destino menos atroz. Possibilidades…

Manhãs

Manhã de setembro. Acordou com uns sonhos comuns – até bobos, desses de qualquer biografia inventada que não mereça ser escrita. Nada de novo de novo. Uma vontade de gritar pra cidade tudo o que estava eclodindo nos seus pensamentos, como quem lança poemas ao vento buscando numa alma desavisada um alento. Vento. Um momento e silencio. Não era mais sobre sonhar ou realizar – e nunca foi sobre ganhar ou perder; sempre foi sobre resistir e não desistir. As dores vão, fica a razão, umas lágrimas e uma intensa vontade de gritar pra cidade onde tocam os sinos o que era sobreviver tentando… Sinos e sinas no clima das manhãs de setembro. Só.

Vermelhos

Vermelho. Sinal fechado, ficou parado vendo a vida passar. O recado no espelho cristalizado no olhar. Uma dor, uma tristeza nessa vida, uma vontade de chorar, um vazio de solidão, uma vontade de gritar… O sinal abriu e fechou – e abriu e fechou de novo. E ficou ali, parado. Talvez, precisasse sentar na calçada e conversar com alguém. Ficou parado ali. Ninguém nem aí pra sua dor. A cidade fica inerte diante das emoções que vertem dos sentidos e revestem o tempo de cinza. Silêncios sem cor, dores sem amor. E o sinal abriu… de novo.

Certo

… e entre tantos entretantos restaram apenas os danos, planos mil vezes refeitos, pratos desfeitos, sorrisos sem jeito esmaecendo certezas de que não demos mais certo. Por certo, nesta ou numa outra vida, hemos de ter a chance de desmanchar os laços e viver só no instante do enquanto dura um abraço. Enquanto o tempo passa, passamos. Passamos.

Carnaval

… cansou de escrever poemas pra uma vida que não rimava com nada, que não prestava pra nada e que faltamente só rumava escada abaixo pro porão e arrumava um pretexto pra desarrumar seu coração. Sol entre frestas, sinos e sons de carnaval, poeira, rabiscos, discos riscados, destinos conhecidos, copos quebrados, corpos suados, final revelado: amor velado. Novela, o carvão e a tela trincada, pergaminho manchado de nanquim: nada ficou de você em mim – além dos endereços dos bares e dos lares em que vivemos [jun-tos]. Não faz mal.

Fique sabendo que eu tô legal.
Foi sem querer.
Eu me apaixonei.
Chorei… Sorrí… Mas eu nunca menti.
Insensatez.

Calma

Janeiro terminou assim: pisou no chiclete, esqueceu aniversários, boletos; perdeu chaves, juízo e assim abriu portas tortas pra desbravar caminhos certos. De certo, n’alguma vez na vida estava certo: tem mesmo é que perder o juízo e dar prejuízo pro tempo, pra ele passar mais lento e cada minuto durar mais – ralentar os ponteiros, ramelar com a saudade e não estender as vontades do peito e ajeitar um jeito de re-a-li-zar. Nem sempre a alma entende o corpo; coração não é metrônomo e a cabeça não é batuta – e nesse dueto de embate a luta deixa biruta tudo de bom que vagueia por aí. Janeiro. Rabiscou poesias em partituras e a vida dura forjou reis sábios e reinos fortalecidos na sua alma. Calma. Não tem mais tanta pressa [o tempo entregou uma pausa]. Acalma a alma de chiclele nesse jeito de moleque e sonha. Vai buscar janeiros…

Mar

Idas e vindas; passagens, partidas… A imensidão do mar não é tão grande e forte como Deus. Pronfundo, intenso, imenso, é Ele que cura nossas feridas e apaga as nossas dores, assim como o mar, o vento, fazem com as marcas que deixamos na areia… Fica o cheiro de mar, o sal e o sol na pele e uma vontade de sempre voltar… Volta.

Sabiá

… existe uma certa solidão no final de tarde de domingo que nem torcida de final espanta. Um movimento lento vai acalentando a cidade enquanto pensamentos voam livres como sabiá.

O bar já vai fechar – e dentro dele ainda tem muitos corações abertos, dispersos, despertos e mais pertos da verdade: não é certo sofrer de solidão num mundo de bilhões.
Por sorte ou por decreto deveria existir um lugar para cada coração e um tempo para cada olhar brilhar ao encontrar outro olhar brilhando.
Onde ou quando, isso tudo vai se transformar em poesia pra contar historias bonitas, de solidão sucinta e uma paz infinita – aquela de saber e sentir onde é o seu lugar e qual é o seu momento nesse mundo de bilhões.

Por onde for, vai encontrar amor e um triz de solidão de tardes de domingo. Vai pra gritaria da torcida enlouquecida. Aprende a sorrir como o canta o sabiá. Não esquece de regar as plantas – e cuidado com o que você planta.
Dança. Canta. Deixa a porta aberta, deixa as chaves, deixa os tormentos, deixa sem sentido mesmo, a esmo, e segue no sentido contrário da dor até encontrar a flor nesse lugar estranho que é o coracao: amor. O tempo é o pensamento: vai voar…

Sexta

O que há no calor das chamas que atrai e repele?

O que tem no cheiro dos lençóis bagunçados no fim de semana?

Quanto tempo dura um filme pra dois abraçados no sofá?

Deixa chover, pode chorar. Não adianta pensar no que não foi.
Foi.

Sexta-feira, derradeira chance de um lance diferente acontecer com essa gente que sempre esquece o que é viver: a-mar.
Amar.

Amar como vela feita pro mar; como surfista. Amar com as cores e a leveza de pipas. Amar como estrela que morre e deixa sua luz, que reflete na lágrima da noiva sobre o véu que o pai conduz. Amar como o mar: quase infinito, profundo. Amar como quem dançar na chuva sem medo de resfriado, sem pensar no que os outros vão pensar. Amar e se amar porque é assim que foi [é] feito pra ser. … e pra durar – não uma eternidade, talvez – mas se acabar, que seja como poeira num show de axé ou de estrelas em rastros de luz… Buzina!
A cabeça acelera a milhão e foge do coração escaldado batendo sufocado pra lembrar que a vida está aí – e ainda bem que chove pra você dançar na chuva.

Não precisamos de guarda-chuva, nem de lágrimas na chuva. Viajar entre os fones, pode! Então, se curva diante do tempo e pede um momento pra recombinar os atos, apagar os hiatos, realinhar os astros que seja, pra você rabiscar roteiros impensados, paixões de cinema, trilhas e temas… Copo quebrado, gargalhadas!

Voltou pra casa como quem esperasse [re]encontrar um lar ou mares salpicados de poeira de estrelas ou ainda um bar com mesa na calçada ao ceú forrado de lâmpadas elétricas suspensas pelo infinito… Viajou de mochila por universos de sí e parou no sofá. Adormeceu, inerte às luzes e histórias da TV.
Sonhou, era um dia de sol: porque um dia de sol é melhor do que uma noite de chuva… Só.

Page 3 of 9

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén