Foi melhor mesmo ter comprado uma bicicleta, pensou. E foi.
Mês: outubro 2015

Só mais uma dose, um trago, talvez um cigarro. E lá se vai mais um dia, que começou com o leite frio esmaecendo o café quente, gente apressada, notícias do tempo e pensamentos sobre o que realmente vale a pena nesta vida, que rompem o dia até chegar alí. Só mais uma dose, é muito assunto e a cerveja esquenta; a peleja é muita e alguém lamenta não ter a coragem de tentar fazer o que gosta, de ficar com quem ama, nem que seja para trocar o drama por ficção – porque a vida está esquisita aqui desse jeito. Mais uma dose, só esse pleito: saideira, caidera, derradeira… Sem respostas, sem conclusão, só muita indagação. Já é tarde. Televisão ainda ligada, já começa a madrugada. Daqui a pouco começa tudo de novo. Um homem varre os cacos de almas despedaçadas e avisa que vai fechar. Agora, só resta dividir o que sobrou dos sonhos e a conta…

De repente ficou mais fácil encontrar alegria: era só uma questão de afinação e compasso. Sem laços, sem muita noção, sem pensar demais, já era capaz de sorrir para qualquer novo amor ou paixão que por descuido surgisse em seu caminho e quase como num acidente se chocasse com seu olhar distraído, na cadência (de) bamba de suas ancas atrevidas, de seu perfume boêmio, coração malandro batendo como pandeiro em contraponto à sua alma vibrando como as cordas do violão. Nem era carnaval e ela desfilou.

Foram muitas as andanças – e só parou quando encontrou o seu lugar, de paz e perdão. E sentiu que este lugar estava tão perto quanto distante: dentro de si. Não era uma jornada de auto conhecimento – e como poderia ser com os pés tão castigados de chão, camas de cimento, chuva, relento, só a sombra contra o sol como companhia, nenhum cão… Ah, quanta dor e tormento a vida lhe ofereceu e nem teve tempo de recusar. Falava pouco e não pedia nada pra ninguém – só pra Deus, de vez em quando…